Rio de Janeiro – Um grupo de torcedores brasileiros do Olympique de Marseille criou uma campanha que converte cada gol de Mason Greenwood em doação de R$ 5 ao Instituto Maria da Penha (IMP). A iniciativa começou em julho de 2024, quando o atacante inglês, denunciado por agressão e estupro em 2022, foi contratado pelo clube francês.
Como surgiu a ideia
A frustração com a chegada de Greenwood ao Vélodrome mobilizou Leonardo Gouveia, assistente social e fundador do fã-clube OM Brasil, criado em 2012. Acompanhado por Guilherme Torres e outros administradores da página – Felipe Oliveira, Marcelle Freitas e Matheus Dutra –, ele decidiu “lembrar para não esquecer” da denúncia contra o jogador. O grupo adotou um modelo semelhante ao movimento europeu “Buts de Valeur”, que também atrela gols a doações, e fixou o valor de R$ 5 por gol ao IMP.
“Sempre fui contra a contratação”, recorda Leonardo. “Deixar de torcer não era opção, então transformamos o desconforto em ação prática.” Desde a estreia do atacante pelo Marseille, em 18 de julho de 2024, o pix ao Instituto Maria da Penha tornou-se parte das publicações do OM Brasil nas redes sociais.
Metodologia da campanha
Cada vez que Greenwood marca, o perfil @Brasil_OM publica o placar, relembra a chave pix do IMP (11.161.826/0001-59) e confirma a transferência de R$ 5. O valor foi escolhido por ser acessível para quem quiser aderir. Os administradores destacam que não concentram doações; cada participante envia a contribuição diretamente ao instituto e, se desejar, compartilha o comprovante nos comentários.
Crescimento e alcance
Em 18 de outubro de 2025, numa goleada por 6 × 1 sobre o Le Havre pela Ligue 1, Greenwood fez quatro gols. O tweet do OM Brasil com o lembrete da campanha alcançou mais de 6,3 milhões de impressões. “Recebemos comprovantes de torcedores franceses, de pessoas na República Democrática do Congo e até solicitações de como doar fora do Brasil”, conta Guilherme.
Até novembro de 2025, o atacante somava 33 gols pelo clube, o que representou pelo menos R$ 330 em transferências feitas apenas por Leonardo e Guilherme. O valor real tende a ser maior, pois seguidores passaram a contribuir espontaneamente. A ação, segundo os organizadores, “furou a bolha” em 2025 e segue ativa.
Antecedentes do jogador
Greenwood era atleta do Manchester United quando, em janeiro de 2022, a então namorada Harriet Robson divulgou imagens com hematomas e um áudio em que o atacante supostamente a forçava a manter relação sexual. A publicação foi removida, mas a Polícia de Manchester abriu investigação e prendeu um homem “na casa dos 20 anos” por estupro e agressão – nome não revelado. Em fevereiro de 2023, as acusações foram retiradas. Sem espaço na Inglaterra, Greenwood foi emprestado ao Getafe em setembro de 2023 e, após bom desempenho, contratado em definitivo pelo Marseille no ciclo seguinte.
Repercussão na torcida
O debate divide torcedores. Alguns criticam o OM Brasil por insistir na lembrança do caso; outros elogiam a postura. Leonardo é direto: “Se alguém deixa de nos seguir porque denunciamos violência contra a mulher, isso não nos preocupa”. O fã-clube afirma manter “ideologia marcada”, alinhada à base de torcedores do Olympique, conhecida por posicionamentos políticos no Vélodrome.
Inspiração em experiências anteriores
Antes de Greenwood, o OM Brasil já explorava o pix nas redes para engajamento. Com o atacante português Vitinha, que marcou seis vezes em 43 jogos, a página sorteava pequenos valores aos seguidores se ele balançasse as redes. A proposta agora ganhou caráter social: “Queríamos tratar de violência doméstica de forma responsável e contínua, não apenas em um post isolado”, explica Guilherme.

Imagem: Internet
Instituto Maria da Penha
A cofundadora e superintendente do IMP, Conceição de Maria Mendes, considera a campanha “fundamental” para ampliar o debate: “O gol passa a corresponder à vitória pela dignidade, pela segurança e pela justiça das mulheres”. Segundo ela, iniciativas ligadas ao esporte atraem públicos que normalmente não acompanham causas de direitos humanos.
Dados sobre violência contra a mulher
Levantamento do Atlas da Violência, produzido pelo Ipea, aponta que 177.086 mulheres sofreram violência doméstica em 2023, equivalente a 64,3 % das agressões contra pessoas do sexo feminino no país. O índice cresceu 22,7 % em relação a 2022. A Organização Mundial da Saúde estima que 316 milhões de mulheres no mundo foram vítimas de agressões física ou sexual de parceiros íntimos nos últimos 12 meses.
Situação esportiva
Em campo, Greenwood, 24 anos, transformou-se no artilheiro do Marseille na temporada 2025-26 com 11 gols. A equipe do técnico Roberto De Zerbi ocupa a vice-liderança da Ligue 1, somando 28 pontos, dois a menos que o Paris Saint-Germain. A boa fase esportiva não elimina a controvérsia: até o prefeito de Marselha, Benoît Payan, já se declarou contrário à contratação.
Próximos passos da mobilização
Leonardo e Guilherme prometem manter o pix ativo enquanto o atacante vestir a camisa azul-celeste. A meta é garantir que a discussão sobre violência contra a mulher “não caia no esquecimento”. Eles também avaliam ampliar a ação para gols de outros atletas envolvidos em denúncias semelhantes, caso passem a defender o Marseille.
Para participar, torcedores devem enviar qualquer valor ao Instituto Maria da Penha e, se quiserem, registrar a doação nas redes com a hashtag #ButsDeValeur. “Queremos que o futebol ajude quem precisa, mesmo que seja por causa de um episódio que jamais deveria ter acontecido”, conclui Leonardo.
Com 33 gols marcados desde 2024, cada bola na rede de Greenwood reforça a luta contra a violência doméstica e mostra que a paixão pelo clube pode caminhar lado a lado com responsabilidade social.
Com informações de Trivela