O livro “Os Sorrentinos”, escrito pela argentina Virginia Higa e publicado no Brasil pela Editora Autêntica Contemporânea, chega às prateleiras nacionais destacando-se pelo entrelaçamento de culinária, memória e humor. A obra, traduzida por Sílvia Ornelas, apresenta aos leitores a trajetória de uma família que deixou a Itália há mais de um século e fincou raízes em Mar del Plata, na costa atlântica da Argentina. Entre dilemas de gestão de negócios, lembranças de antepassados e acirradas disputas internas, o romance constrói um painel que combina drama e comicidade, sempre temperado por receitas capazes de aguçar o apetite de qualquer leitor.
Família de imigrantes cria prato icônico
No centro da narrativa está o surgimento dos sorrentinos, massa de formato arredondado e tamanho generoso, tradicionalmente recheada com presunto e queijo. Segundo o enredo, o prato foi elaborado pelo patriarca Umberto depois que a família se estabeleceu em Mar del Plata. Primeiro, os imigrantes abriram um hotel; em seguida, inauguraram um restaurante que logo ganharia fama justamente pelos sorrentinos. A combinação de textura e recheio conquistou o paladar da clientela, espalhando-se por todo o território argentino e tornando-se um símbolo gastronômico local.
O romance descreve que, fora de Mar del Plata, a receita não alcança o mesmo resultado. Higa insere um detalhe curioso para explicar a diferença: “Todas as vezes que Umberto cozinhou os sorrentinos em Buenos Aires ou em alguma outra cidade, a opinião foi unânime: o resultado era de qualidade inferior. Havia algo na água de Mar del Plata que conferia aos sorrentinos seu sabor inconfundível”, escreve a autora. Assim, o elemento aparentemente banal — a origem da água utilizada na massa — passa a exercer papel fundamental na história, ilustrando a relação íntima entre território e culinária.
Narrativa alterna presente e passado
Virginia Higa estrutura o livro em capítulos que alternam diferentes períodos e vozes, permitindo ao leitor acompanhar simultaneamente o cotidiano atual dos descendentes e os episódios remotos que moldaram a identidade familiar. Dessa forma, o romance transita entre pequenas rusgas administrativas — como desacordos sobre finanças ou estratégias para manter o restaurante competitivo — e conflitos mais profundos, que envolvem heranças, traições e antigas mágoas. A oscilação constante entre tempos confere ritmo leve à leitura, mesmo quando surgem passagens carregadas de emoção.
Ao retomar episódios ocorridos “lá e cá do Atlântico”, a autora também debate a tentativa de preservar tradições em solo estrangeiro. Receitas transmitidas oralmente, hábitos de mesa, expressões idiomáticas e valores herdados convivem com as inevitáveis adaptações à nova realidade da América do Sul. Nesse processo, explica o romance, uma identidade híbrida se forma: nem totalmente italiana, nem estritamente argentina, mas sim resultado de “mishadura”, fusão que traz o medo da pobreza de volta ao imaginário familiar e, ao mesmo tempo, reforça a necessidade de exibir fartura à mesa.
Comida como fio condutor
O texto é recheado de descrições detalhadas sobre massas, molhos, frios e queijos, além de referências a utensílios específicos, como a carretilha — roda dentada usada para cortar e fechar a borda dos sorrentinos. As minúcias culinárias cumprem dupla função: por um lado, servem como recurso narrativo para aprofundar a caracterização dos personagens; por outro, convidam o público a experimentar as receitas em casa. A abundância de pratos faz com que a leitura seja acompanhada por uma permanente evocação de sabores e aromas, incentivando muitos leitores a irem direto para a cozinha.
Ao mesmo tempo, a autora insere comentários que reforçam a ligação emocional das refeições com momentos de celebração ou conflito. Mesas fartas acompanham anúncios de prosperidade, enquanto períodos de escassez ou tensões familiares aparecem associados à dieta restrita. Dessa forma, a obra reforça a comida como símbolo de ascendência social, afeto e identidade.
Tom leve, sem ser superficial
Embora trate de tópicos sensíveis, como rupturas internas e a luta contra o retorno à miséria, “Os Sorrentinos” mantém um tom bem-humorado. A crítica literária ressalta que as personagens, mesmo nos instantes de maior tensão, são construídas com simpatia, o que evita o peso excessivo no andamento da história. O resultado é um romance considerado “boa companhia para momentos em que procuramos por uma leitura mais leve, mas jamais besta” — frase que sintetiza a recepção calorosa por parte dos especialistas.
Além disso, a alternância entre pequenas anedotas cotidianas — um parente que só consome determinada marca de cerveja produzida em Agudos (SP), por exemplo — e discussões sobre herança cultural torna o enredo mais próximo do público brasileiro. Muitos leitores podem reconhecer em suas próprias famílias preocupações semelhantes, como a escolha de ingredientes específicos ou o cuidado em perpetuar receitas tradicionais.
Edição brasileira
A versão publicada pela Autêntica Contemporânea inclui tradução assinada por Sílvia Ornelas, responsável por adaptar expressões regionais e termos gastronômicos sem perder o ritmo original. O volume faz parte da coleção de literatura hispano-americana contemporânea da editora, que já lançou no país romances de diferentes autoras da região.
Segundo a casa editorial, o lançamento reforça a aposta em autores que trabalham memória, imigração e gastronomia como eixos centrais. Em material de divulgação, a editora destaca que o texto de Higa “combina narrativa acessível, rigor histórico e uma saborosa imersão na cozinha ítalo-argentina”.
Repercussão entre leitores
Comentários de leitores nas redes sociais mostram entusiasmo com o aspecto culinário da obra. Muitos relatam ter interrompido a leitura para buscar algo para comer ou comprar utensílios de confeitaria. Outros compartilham fotos de tentativas caseiras de preparar sorrentinos, ainda que, no Brasil, seja impossível reproduzir o suposto “ingrediente secreto” — a água de Mar del Plata. A curiosidade a respeito do prato levou influenciadores literários a produzir vídeos demonstrando o passo a passo da massa, estimulando ainda mais a interação entre literatura e gastronomia.
Críticos também chamam atenção para os diálogos ágeis e o retrato das contradições enfrentadas por famílias que vivem entre a nostalgia do país de origem e as exigências de um novo ambiente econômico. O medo da “volta à pobreza” surge como tema recorrente, justificando a exibição de abundância à mesa. Ao mesmo tempo, cresce a consciência de que tradições podem se transformar sem perder o valor afetivo.

Imagem: Internet
Humor, afeto e tensão
Um dos destaques do livro é a capacidade de equilibrar humor e densidade dramática. Situações banais, como discussões sobre a procedência de ingredientes, convivem com disputas legais e separações dolorosas. A autora mostra que, muitas vezes, os laços familiares se sustentam justamente em torno da rotina culinária — é na cozinha, durante o preparo dos sorrentinos, que divergências afloram e reconciliações se esboçam.
Ao longo de suas pouco mais de 250 páginas, “Os Sorrentinos” evita maniqueísmos fáceis. Personagens considerados simpáticos podem tomar decisões egoístas, enquanto figuras inicialmente antipáticas revelam motivações compreensíveis. Esse tratamento nuanceado contribui para o interesse contínuo do leitor, que acompanha as reviravoltas com curiosidade.
Livro desperta vontade de cozinhar
Entre as reações mais frequentes ao romance está a vontade imediata de reproduzir as receitas descritas. A presença de utensílios específicos, como a carretilha mencionada em vários trechos, inspira leitores a procurarem o item em lojas de artigos de cozinha. A iguaria central — os sorrentinos recheados de presunto e queijo — figura no topo das buscas em plataformas de receita. Mesmo leitores que não têm prática culinária relatam o desejo de experimentar a massa em casa, adaptando recheios de acordo com ingredientes disponíveis.
Essa interação prática reforça a proposta do livro de transcender o espaço literário, estimulando experiências sensoriais — olfato, paladar e tato — que complementam a imaginação. Em entrevistas concedidas à imprensa argentina, Virginia Higa afirmou que “cozinhar é uma forma de manter viva a memória familiar”, frase bastante ilustrativa do espírito que permeia a obra.
Público-alvo e acessibilidade
Embora o tema central gire em torno de imigrantes italianos na Argentina, “Os Sorrentinos” fala diretamente a leitores interessados em dinâmicas familiares, tradições gastronômicas e as tensões entre passado e presente. A linguagem acessível, reforçada pela tradução cuidadosa, facilita a aproximação de públicos diversos, incluindo aqueles que buscam narrativas menos lineares, mas ainda assim fáceis de acompanhar.
Além de leitores habituais de literatura latino-americana, o romance pode atrair entusiastas de livros de gastronomia. A presença constante de pratos, métodos de preparo e detalhes sobre ingredientes cria pontos de contato com esse segmento, ampliando o alcance da obra.
Com lançamento original em espanhol, o livro ganha agora edição em português num momento em que o mercado editorial brasileiro valoriza autores regionais. A Autêntica aposta que o tema pode dialogar com a trajetória de outras comunidades imigrantes no Brasil, país onde a fusão culinária e cultural também é parte marcante da história nacional.
“Os Sorrentinos” já está disponível em livrarias físicas e plataformas digitais. A editora não divulgou tiragem inicial, mas informou que o volume integra seu catálogo permanente. Leitores interessados podem encontrar a obra em capa brochura ou em e-book.
Com narrativa enxuta, diálogos envolventes e fartas referências culinárias, o romance de Virginia Higa consolida-se como convite para refletir sobre pertencimento, saudade e, claro, a capacidade de a comida unir — ou separar — pessoas ao longo de gerações.
Com informações de UOL