Washington (EUA) – A Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) emitiu, na quarta-feira, 26 de novembro, um comunicado público advertindo emissoras de rádio dos Estados Unidos sobre uma série de intrusões cibernéticas que resultaram na transmissão de falsos alertas de emergência e de mensagens com conteúdo obsceno. Segundo o órgão regulador, os ataques ocorreram após hackers comprometerem equipamentos de áudio em rede mal protegidos, desviando a programação normal para inserir material impróprio no ar.
Equipamentos vulneráveis permitiram sequestro de sinal
De acordo com a FCC, os invasores exploraram falhas de configuração em dispositivos da Barix, fabricante suíça de soluções de áudio sobre IP bastante utilizada por estações de rádio. Uma vez dentro da rede, os cibercriminosos reconfiguraram os aparelhos para receber e retransmitir o áudio que eles próprios enviavam, substituindo automaticamente o conteúdo legítimo da emissora.
Entre os materiais inseridos estavam o Sinal de Atenção do Sistema de Alerta de Emergência dos EUA (EAS, em inglês) – tom sonoro que antecede mensagens oficiais sobre furacões, terremotos ou outras situações críticas. O alerta falso foi combinado a gravações com linguagem obscena, declarações preconceituosas e demais peças consideradas impróprias para transmissão em horário aberto.
Incidentes recentes no Texas e na Virgínia
A autoridade federal citou reportagens publicadas nos últimos dias por veículos de comunicação locais, apontando episódios específicos nos estados do Texas e da Virgínia. Nesses casos, hackers teriam cortado a programação para veicular discursos ofensivos, além de ruídos que simulavam alarmes governamentais. As emissoras afetadas não foram nomeadas no documento oficial.
Embora o volume total de estações comprometidas não tenha sido divulgado, a FCC classificou a situação como “série recente de intrusões” e recomendou a adoção imediata de medidas de segurança. O órgão destacou que sistemas conectados à internet sem senha robusta — ou com credenciais de fábrica não alteradas — se tornam alvos fáceis de ataques de força bruta ou de varreduras automatizadas que identificam portas de comunicação abertas.
Recomendações para prevenir novos ataques
No aviso público, a FCC orientou que as empresas de radiodifusão:
- alterem senhas padrão em todos os dispositivos ligados à cadeia de transmissão;
- atualizem regularmente o firmware dos equipamentos;
- limitem o acesso remoto apenas a endereços IP confiáveis;
- implementem autenticação multifator sempre que possível;
- isolem a rede de áudio de outras redes corporativas e da internet pública.
O órgão acrescentou que, em situações suspeitas, os gerentes técnicos devem desligar imediatamente qualquer unidade que esteja retransmitindo áudio não autorizado e reportar a ocorrência à FCC por meio dos canais dedicados ao Sistema de Alerta de Emergência.
Barix não se pronunciou sobre o caso atual
Procurada pela agência de notícias Reuters, a Barix não respondeu aos pedidos de comentário sobre os incidentes ocorridos em novembro. Em episódio semelhante registrado em 2016, a companhia afirmou, por meio de nota, que seus dispositivos “são seguros para uso em transmissões quando configurados corretamente e protegidos com senha forte”.
Na avaliação de especialistas ouvidos por veículos de tecnologia, o histórico sugere que a vulnerabilidade principal não está necessariamente no hardware, mas nos hábitos de administração de rede. Credenciais fracas, falta de patches de segurança e a exposição de portas padrão tornam os aparelhos suscetíveis à atuação de agentes mal-intencionados.
Ferramentas de IA também entram no radar
A preocupação com ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas não se limita a estações de rádio. Mais cedo, neste mês de novembro, veio a público um relatório da desenvolvedora norte-americana Anthropic relatando o uso indevido de seu modelo de linguagem Claude por hackers supostamente ligados ao governo da China. Conforme detalhou Jacob Klein, chefe de inteligência de ameaças da empresa, o grupo utilizou prompts automatizados para facilitar invasões a organizações públicas e privadas ao redor do mundo.
Os principais pontos do relato são:
- Hackers executaram ações ofensivas com “um clique”, recorrendo a instruções em linguagem natural fornecidas ao Claude;
- A Anthropic interrompeu a campanha após detectar quatro invasões bem-sucedidas entre cerca de 30 alvos identificados;
- Segundo a companhia, nenhuma agência do governo dos Estados Unidos foi comprometida, embora não tenha sido revelado se houve tentativas malsucedidas de invasão a órgãos federais.
A revelação reacendeu o debate sobre o uso de inteligência artificial para potencializar ciberataques, sobretudo em setores que dependem de sistemas de alerta público, transmissão de informação ou serviços essenciais.
Impacto potencial em situações de emergência
A transmissão não autorizada de sinais do EAS gera preocupação adicional porque pode afetar a credibilidade do alerta real em eventos de desastre. Em caso de furacão, incêndio florestal ou emergência civil, a população confia nos tons característicos do sistema para validar a veracidade das informações recebidas via rádio, televisão ou mensagens multimídia.

Imagem: Viktorus
Para a FCC, a confiança do público depende da preservação da integridade do sinal. “O uso indevido de tons de alerta, reais ou simulados, pode confundir os ouvintes, causar pânico desnecessário ou, na pior das hipóteses, levar as pessoas a ignorar avisos legítimos no futuro”, afirmou o órgão no documento.
Como funciona o Sistema de Alerta de Emergência
Criado em 1997, o EAS é um programa nacional que permite ao presidente dos Estados Unidos ou à Agência Federal de Gerenciamento de Emergências (FEMA) enviar comunicados críticos em segundos a todo o território norte-americano. Rádios comerciais e públicas, emissoras de TV, operadoras de cabo e serviços satelitais são obrigados a manter equipamento compatível, capaz de interceptar e retransmitir, de forma automática, mensagens oficiais disparadas em cadeia.
O protocolo prevê a emissão de um Sinal de Atenção — sequência de dois tons audíveis — que antecede a mensagem de voz ou texto. O som é reconhecido pela população e serve para interromper outras atividades, garantindo que a audiência receba instruções sobre rotas de evacuação, abrigos ou procedimentos de segurança. Por isso, o uso não autorizado desses tons viola normas federais e está sujeito a multas severas.
Próximos passos e fiscalização
A FCC informou que continuará monitorando incidentes de interferência e trabalhará em conjunto com o Departamento de Segurança Interna (DHS) e com a FEMA para identificar vulnerabilidades em redes de difusão. “Emissoras que descobrirem atividades suspeitas devem notificar imediatamente a comissão”, reforçou a entidade.
O comunicado encerra reiterando que a adoção de boas práticas de cibersegurança é responsabilidade compartilhada entre fabricantes de equipamento, radiodifusores e provedores de serviço. Sem detalhes sobre investigações em andamento, a FCC não forneceu cronograma para conclusão das análises, mas destacou que novas orientações poderão ser publicadas caso sejam detectados riscos adicionais.
Até o momento, não há informações de que os invasores tenham exigido resgate financeiro ou divulgado reivindicações formais. As autoridades também não divulgaram suspeitos ou grupos de hacking associados aos ataques, limitando-se a sinalizar que os alvos principais têm sido estações com infraestrutura conectada à internet sem protocolos de defesa robustos.
Rádios de pequeno e médio porte, frequentemente com orçamentos reduzidos para TI, figuram na lista de unidades mais vulneráveis, conforme especialistas em segurança de transmissão. Para esses operadores, as recomendações básicas da FCC — troca imediata de senhas padrão, desativação de serviços desnecessários e segregação de rede — podem representar a diferença entre manter a programação no ar ou expor o público a informações falsas.
Em caso de dúvida sobre a integridade de seus sistemas, as emissoras são aconselhadas a acionar consultores de segurança cibernética ou solicitar orientações técnicas diretas à comissão.
Novos desdobramentos do incidente poderão ser divulgados nas próximas semanas, à medida que as investigações avancem e as emissoras afetadas revelem detalhes sobre a extensão dos danos sofridos.
Com informações de Olhar Digital