A prática de agendar um check-up completo a cada 12 meses ainda é vista por muitos brasileiros como sinônimo de prevenção. Entretanto, evidências científicas e recomendações de sociedades médicas mostram que a repetição anual de diversos testes pode ser desnecessária — e, em alguns casos, até trazer riscos ou custos sem benefício comprovado. A orientação é individualizar o calendário de exames, levando em conta idade, histórico familiar, estilo de vida e a presença de sintomas.
Check-up individualizado é a regra
Segundo especialistas, não existe uma lista única de exames obrigatórios para todas as pessoas nem um intervalo fixo que sirva para todos os casos. O primeiro passo é a avaliação clínica detalhada: somente após analisar fatores como pressão arterial, índice de massa corporal, hábitos de alimentação, níveis de atividade física e doenças registradas na família o médico decide o que solicitar e quando repetir.
O médico e comunicador Dr. Drauzio Varella reforçou esse ponto em vídeo publicado em seu perfil no TikTok. De acordo com ele, determinados exames laboratoriais ou de imagem podem até ser recomendados anualmente a partir dos 25 anos, mas apenas para quem apresenta fatores de risco ou antecedentes pessoais relevantes. Para indivíduos sem tais condições, o mesmo conjunto de testes costuma passar a fazer sentido apenas a partir dos 35 anos, sempre com base em avaliação médica individual.
Testes cardíacos: quando realmente solicitar
Entre os procedimentos frequentemente incluídos em check-ups, os exames cardiovasculares lideram a lista de dúvidas. O teste ergométrico (ou teste de esforço) e o Holter de 24 horas são indicados quando há suspeita clínica de arritmias, dor torácica, falta de ar aos esforços ou outros sintomas compatíveis. Fora dessas situações, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) não recomenda o uso rotineiro desses métodos para adultos jovens e assintomáticos classificados como de baixo risco. Quando o resultado de uma avaliação prévia é normal, intervalos maiores do que um ano costumam ser suficientes.
Para pacientes que já possuem fatores de risco — como hipertensão, diabetes, colesterol elevado ou histórico familiar de doença coronariana precoce —, o cardiologista pode sugerir a repetição em prazos menores, mas essa decisão deve ser tomada caso a caso. A realização indiscriminada pode gerar achados de pouca relevância clínica, além de expor o paciente a eventuais procedimentos complementares evitáveis.
Papanicolau: intervalo de três anos após exames normais
No campo da saúde da mulher, o Papanicolau é considerado ferramenta essencial de rastreamento do câncer do colo do útero. O Ministério da Saúde orienta iniciar o exame após o começo da vida sexual. A recomendação, porém, não é anual. Se os dois primeiros resultados forem normais, a mulher pode repetir o exame a cada três anos. A periodicidade pode se alterar em situações específicas, como presença do vírus HPV, imunossupressão ou alterações celulares detectadas em qualquer etapa do acompanhamento.
Especialistas lembram que espaçar o teste em pacientes sem alterações não reduz a segurança do rastreamento, pois o processo de transformação celular que leva ao câncer costuma ser lento. Por outro lado, repetir o exame anualmente em mulheres sem fatores de risco aumenta custos e ansiedade, sem ganho proporcional de detecção precoce.
Ultrassom transvaginal não é exame de rotina
Outro procedimento frequentemente incluído em check-ups femininos é o ultrassom transvaginal. De acordo com o ginecologista Dr. João Alho, não há evidência científica que justifique a indicação desse exame em mulheres assintomáticas e sem fatores de risco específicos. A ultrassonografia deve ser solicitada quando há dor pélvica, sangramento uterino fora do esperado, suspeita de endometriose ou acompanhamento de condições previamente diagnosticadas. Em rastreamentos indiscriminados, o método pode identificar cistos funcionais que desapareceriam espontaneamente, levando a investigações e intervenções desnecessárias.

Imagem: Buravleva stock
Ultrassom de tireoide: risco de superdiagnóstico
No caso da tireoide, a recomendação é ainda mais restritiva. A realização de ultrassom da glândula em pessoas sem sintomas e sem nódulos palpáveis no pescoço não faz parte dos exames de rotina da população geral. Estudos mostram que o uso indiscriminado do método resulta em detecção de nódulos benignos que jamais causariam problemas ao longo da vida, fenômeno conhecido como superdiagnóstico. O excesso de achados considerados inofensivos pode trazer preocupação desnecessária e levar a biópsias ou cirurgias que poderiam ser evitadas. Assim, a indicação deve ser fundamentada em queixas clínicas, histórico familiar significativo ou alterações percebidas no exame físico.
Teste de intolerância alimentar: somente com sintomas
O teste de intolerância alimentar por anticorpos IgG também figura na lista de solicitações frequentes, mas a sua necessidade é questionada pela comunidade científica. O exame mede a presença de anticorpos IgG contra determinados alimentos e costuma ser recomendado apenas quando o paciente apresenta sintomas como azia persistente, distensão abdominal, excesso de gases, cefaleias ou outros desconfortos associados à ingestão de comida. Na ausência de sinais clínicos claros, o teste não faz parte do check-up anual. A avaliação médica criteriosa deve anteceder qualquer solicitação, já que resultados positivos sem relevância clínica podem induzir a dietas restritivas desnecessárias.
Tecnologia não substitui julgamento clínico
Apesar dos avanços em diagnósticos por imagem e exames laboratoriais, sociedades médicas reforçam que nenhum teste substitui o exame clínico realizado por profissional qualificado. A decisão sobre quando e quais exames repetir deve considerar benefícios e potenciais danos, incluindo exposição a radiação, falso-positivos, ansiedade gerada por achados incidentais e custos adicionais. A orientação geral é: em caso de sintomas novos ou mudanças no estado de saúde, buscar avaliação médica em vez de recorrer a baterias de exames sem critério.
Orientações finais para o paciente
Para quem planeja o próximo check-up, a conduta mais segura é conversar com o médico assistente antes de montar a lista de exames. Levar informações sobre doenças na família, medicamentos em uso, cirurgias prévias e hábitos de vida ajuda o profissional a definir prioridades. Em linhas gerais, procedimentos cardiovasculares, ginecológicos e de tireoide descritos nesta reportagem podem ser espaçados quando não há sinais de alerta e exames anteriores estão normais. A repetição anual, nesses casos, não traz benefício comprovado.
Com isso, a ciência reforça que prevenção eficaz não se traduz em quantidade de exames, mas em qualidade de acompanhamento e adequação à realidade de cada paciente. Ajustar a periodicidade reduz o risco de intervenções desnecessárias e permite concentrar recursos em áreas realmente prioritárias para a saúde individual.
Com informações de Olhar Digital