Rio de Janeiro – Menos de dois anos depois de pendurar as chuteiras, Filipe Luís coleciona em seu novo ofício a conquista mais importante do calendário sul-americano. No sábado, 29 de novembro de 2025, o treinador de 40 anos guiou o Flamengo à vitória por 1 a 0 sobre o Palmeiras e assegurou o quarto título rubro-negro na Copa Libertadores.
A coroação marca o ponto mais alto de uma ascensão rara no futebol brasileiro. Filipe se despediu dos gramados em 2023, quando encerrava uma passagem recheada de troféus como lateral esquerdo do próprio Flamengo. A partir de janeiro de 2024, ainda dentro do clube, iniciou a carreira técnica nas divisões de base: comandou o sub-17 — 16 vitórias em 20 partidas, 53 gols marcados e título da Copa Rio — e depois o sub-20, equipe que levantou o Intercontinental da categoria.
Em outubro de 2024, a direção rubro-negra efetivou o ex-jogador como treinador do time principal. Pouco mais de um ano mais tarde, o trabalho resultou na taça continental e mantém o time na briga para também finalizar 2025 com a conquista do Campeonato Brasileiro.
Conexão com o elenco impulsiona projeto
A transição de Filipe do vestiário para a área técnica se deu em ambiente que ele já dominava. Companheiro da maior parte do elenco até 2023, o então recém-formado treinador encontrou portas abertas para implementar suas ideias. A comissão foi composta por nomes igualmente conhecidos, caso do ex-zagueiro Rodrigo Caio, parceiro de defesa durante a carreira de atleta. Essa atmosfera “caseira” reduziu ruídos comuns em mudanças de comando e acelerou a assimilação do modelo de jogo.
Ao contrário das experiências anteriores com Domènec Torrent e Paulo Sousa, europeus que tiveram dificuldades para fixar conceitos similares, Filipe Luís conseguiu elevar o chamado Jogo de Posição a um patamar de excelência. A equipe de 2025 é descrita internamente como uma máquina de manipular espaços: mantém a posse, avança em blocos compactos e pressiona a saída adversária com intensidade milimétrica.
Influências e ajustes táticos
O atual desenho estratégico tem pontos de contato com as passagens de Torrent e Sousa. Sob o comando do português Paulo Sousa, Filipe chegou a atuar como zagueiro em uma linha de três que virava linha de quatro na fase defensiva — experiência que, agora treinador, ele adaptou. A saída de bola rubro-negra costuma formar um 3-2: Jorginho e Erick Pulgar recuam e se posicionam entre os zagueiros, liberando laterais e pontas para acelerar a construção.
No ataque posicional, Bruno Henrique recua para atrair a marcação de Gustavo Gómez, enquanto os pontas se aproximam para criar superioridade numérica no corredor central. O mecanismo ficou evidente na decisão diante do Palmeiras: o rival adotou marcação individual quase todo o jogo, mas o Flamengo superou a pressão com inversões rápidas e circulação constante. A posse de bola superou os 70% em diversos momentos.
Final dominante no Maracanã
O duelo decisivo teve controle rubro-negro do início ao fim, ainda que o placar apertado não tenha refletido a diferença de volume. Quatro dos sete chutes palmeirenses foram bloqueados pela defesa, que soube compactar linhas quando precisou recuar. O Palmeiras só conseguiu ameaçar após o Flamengo abrir o marcador, porém não transformou a reação em chances claras.
O gol que valeu o troféu surgiu em jogada coletiva característica: troca de passes curta para atrair a marcação, aceleração pelo lado esquerdo e infiltração pelo centro já com a defesa rival desequilibrada. A bola terminou nos pés do meia Arrascaeta, que finalizou sem chances para o goleiro Weverton.
Números de um ciclo meteórico
O aproveitamento de Filipe Luís à frente do elenco profissional impressiona. Desde a estreia no comando, são 78 jogos oficiais, 51 vitórias, 18 empates e apenas nove derrotas, rendimento de 73,9%. O ataque marcou 152 vezes (média de 1,95 por partida) e a defesa foi vazada em 64 ocasiões. Além da Libertadores, o clube faturou Supercopa do Brasil e Campeonato Carioca na temporada.

Imagem: Imago
Os resultados reforçam a percepção, externada por analistas desde o Mundial de Clubes disputado no início de 2025, de que o Flamengo se descolou do restante do futebol nacional em termos de conceito e execução. A equipe mescla intensidade física, repertório tático e elenco qualificado, fatores que sustentam a atual série invicta de 15 confrontos.
Desafio de manter o nível
Com a conquista sul-americana assegurada, a diretoria mira a manutenção de peças-chave para 2026. Internamente, a prioridade é a renovação do próprio Filipe Luís, cujo contrato termina no fim do próximo ano. O entendimento é que o ex-lateral representa não apenas o elo com o grupo, mas também a garantia de continuidade do modelo de jogo.
Enquanto as conversas avançam, o foco imediato está no desfecho do Campeonato Brasileiro. Restando quatro rodadas, o Flamengo lidera a tabela com cinco pontos de vantagem sobre o vice-líder Atlético-MG. A possibilidade de repetir o feito de 2019 — quando venceu Libertadores e Brasileiro na mesma temporada — motiva elenco e torcida.
Próximos passos
A programação rubro-negra prevê retorno aos treinos já na próxima terça-feira (2), no Ninho do Urubu. O clube encara o Bahia no domingo (7), no Maracanã, em partida que pode encaminhar matematicamente o título nacional. Paralelamente, a diretoria trabalha no planejamento do Mundial de Clubes da FIFA, marcado para dezembro nos Estados Unidos.
Para Filipe Luís, o desafio será ajustar pequenos detalhes sem abrir mão da identidade construída desde a base. Em entrevistas recentes, o técnico tem repetido que “o processo está acima do resultado” — lema que se reflete na rotina de análises individualizadas, treinos de situações específicas e ênfase na recuperação física.
Do vestiário às pranchetas, o ex-lateral consolidou no Flamengo um projeto sustentado por intimidade com o elenco, clareza de ideias e execução dominante. O tetracampeonato da Libertadores, celebrado em um Maracanã lotado, é o símbolo mais vistoso dessa fase, mas também o ponto de partida para novos voos do clube e de seu jovem comandante.
Com informações de Trivela