Londres (ING), 30 de novembro de 2025 – Dois lances ocorridos na 13ª rodada da Premier League voltaram a expor a pressão psicológica imposta aos atletas de elite. O meio-campista brasileiro Lucas Paquetá, do West Ham, desabafou publicamente depois de ser expulso na derrota por 2 a 0 para o Liverpool. Horas antes, o zagueiro francês Lenny Yoro, do Manchester United, foi flagrado chorando no banco de reservas após cometer pênalti e ser substituído diante do Crystal Palace. As cenas reforçam a preocupação crescente com a saúde mental de jogadores na principal liga inglesa.
Expulsão e desabafo de Paquetá
Aos 38 minutos do segundo tempo no Estádio Anfield, Paquetá recebeu dois cartões amarelos consecutivos por reclamação junto ao árbitro, deixando o West Ham com um a menos. A atitude foi classificada como “ridícula” pelo ex-goleiro Rob Green, hoje comentarista da Sky Sports. O brasileiro respondeu nas redes sociais:
“É ridículo ter minha vida e carreira afetadas por dois anos sem nenhum apoio psicológico da federação. Talvez esse comportamento ridículo seja apenas um reflexo de tudo que tive de suportar e, ao que parece, continuarei a suportar. Desculpem se não sou perfeito.”
O atleta, de 28 anos, faz referência ao inquérito da Federação Inglesa (FA) que o investigou por suspeita de envolvimento em esquema de apostas. O processo, que se estendeu de agosto de 2023 a julho de 2025, terminou com a absolvição do jogador, mas deixou marcas profundas. Na época em que a investigação veio à tona, Paquetá negociava transferência para o Manchester City por 97 milhões de euros (cerca de R$ 600 milhões). A possibilidade foi descartada diante do risco de punição, que incluía até banimento vitalício se fosse considerado culpado.
Em sua mensagem, o ex-Flamengo afirmou sentir-se “o vilão” desde o episódio:
“Entendo que agora tenho que me apresentar como o vilão. É difícil conviver com tudo que foi causado na minha vida e na minha psique. Vou continuar tentando garantir que isso não me afete ainda mais. Peço desculpas aos torcedores e aos meus companheiros de equipe.”
Investigação marcou momento chave da carreira
A frustração do brasileiro se explica, em parte, pela interrupção de um salto esportivo e financeiro. A proposta do City, à época comandado por Pep Guardiola, igualava o recorde de maior compra da história do clube. O acordo, porém, dependia de liberação da FA, que acabou abrindo procedimento disciplinar dias antes da assinatura. Desde então, o meio-campista conviveu com incertezas sobre o futuro, críticas da mídia e dificuldade para retomar o rendimento anterior.
Com o caso arquivado em julho, Paquetá permaneceu no West Ham, equipe pela qual conquistou a Liga Conferência da UEFA em 2023. Mesmo livre de acusações, o jogador afirma ter enfrentado insônia, ansiedade e queda de desempenho. Segundo ele, a ausência de acompanhamento especializado oferecido pela federação agravou o problema.
Jovem do United chora após pênalti
No mesmo fim de semana, Old Trafford viveu cena de forte impacto emocional. Aos 34 minutos do primeiro tempo, Lenny Yoro, de 20 anos, derrubou Mateta dentro da área, provocando o pênalti que abriu o placar para o Crystal Palace. O técnico Erik ten Hag manteve o defensor até o intervalo, mas decidiu sacá-lo aos 9 da etapa final, quando o placar apontava 1 a 1. Sentado no banco, o francês não conteve as lágrimas e precisou ser consolado por colegas e membros da comissão técnica.
O United virou o jogo com gol de Mason Mount aos 14 minutos do segundo tempo, mas a cena de Yoro repercutiu nas redes sociais. Ídolo do clube, Rio Ferdinand publicou mensagem de apoio:
“Este jogo pode te deixar maluco às vezes. Use esses aprendizados como combustível. Ele é um jogador jovem e vai se recuperar. Trabalho duro, dedicação e talento de sobra. Um novo dia amanhã.”
Tabu persiste mesmo com iniciativas
Embora a Premier League tenha implantado programas de bem-estar para atletas e funcionários, especialistas reconhecem que o estigma em torno de questões psicológicas ainda é alto. A pressão por performance, a exposição nas redes sociais e as cifras envolvidas intensificam cobranças, sobretudo sobre jovens em ascensão ou veteranos que lidam com processos disciplinares.

Imagem: IMAGO
A Associação de Jogadores Profissionais da Inglaterra (PFA) oferece linhas de apoio 24 horas, mas a busca por auxílio nem sempre ocorre. Segundo levantamento da entidade, menos de 10% dos atletas que atuam nas quatro principais divisões inglesas procuraram ajuda formal em 2024.
Bellingham relatou experiência semelhante
Ídolo do Real Madrid e da seleção inglesa, Jude Bellingham, de 22 anos, relatou em outubro ter enfrentado ansiedade no início da carreira, quando ainda defendia o Birmingham City. Em entrevista à Laureus, o meio-campista explicou que lia críticas sobre seu desempenho no Twitter e, por vezes, acreditava nelas.
“Todo mundo tem direito à sua opinião, mas deve haver limites para as coisas horríveis que se dizem. Eu me perguntava: por que estou colocando isso na minha própria saúde mental? Já há pressão suficiente no esporte profissional, sem precisar sair para procurá-la.”
O jogador afirmou ter abandonado a “imagem de atleta machão” e defendeu que colegas mostrem vulnerabilidade para “abrir diálogo” com torcedores que também sofrem em silêncio. Bellingham tornou-se embaixador do prêmio Laureus e participa de ações voltadas ao combate do estigma.
FA sob questionamento
As declarações de Paquetá elevam a cobrança sobre a Federação Inglesa. Até o momento, a entidade não se pronunciou a respeito das falas do brasileiro. Dirigentes ligados ao West Ham indicam que o clube pretende oferecer acompanhamento interno ao camisa 10, mas reconhecem limites institucionais.
Consultado pela imprensa britânica, o psicólogo esportivo Mark Proctor aponta que o caso expõe “lacunas” no suporte oferecido aos atletas:
“Muitos clubes contam com profissionais qualificados, porém nem sempre os jogadores sentem segurança para compartilhar problemas íntimos. Quando a origem do estresse é externa, como uma investigação, o papel das federações torna-se crucial.”
Próximos compromissos
Suspenso, Paquetá desfalcará o West Ham na 14ª rodada, contra o Wolverhampton, no Estádio Olímpico de Londres. O Manchester United retorna a campo na mesma rodada, diante do Brentford, e a expectativa é de que Yoro permaneça à disposição de Ten Hag. Internamente, a comissão técnica planeja conversas individuais para reconstruir a confiança do jovem defensor.
Enquanto isso, clubes, liga e federação são pressionados a ampliar programas de prevenção, resposta e acompanhamento psicológico, em uma temporada marcada por casos que extrapolam as quatro linhas e evidenciam a saúde mental como tema urgente no futebol de elite.
Com informações de Trivela