No intervalo competitivo que antecede a temporada de 2026, muitos programas esportivos aproveitam a ausência de torneios para convidar figuras consagradas do tênis a discutir temas além das quadras. Entre os assuntos que mais despertam curiosidade está a ascensão de João Fonseca, brasileiro de 19 anos que ocupa a 24ª posição no ranking da ATP.
Depois de Daniil Medvedev comentar a evolução do jovem carioca, foi a vez de Rafael Nadal ser instado a falar sobre o mesmo tópico. O ex-número 1 do mundo participou nesta semana do El Larguero, tradicional programa da rádio espanhola Cadena SER. Aos 39 anos e proprietário de 22 títulos de Grand Slam, o espanhol demonstrou prudência ao avaliar o que pode vir pela frente para o promissor atleta sul-americano.
Prudência de quem conhece o circuito
Questionado sobre a possibilidade de Fonseca se tornar protagonista de duelos com Carlos Alcaraz e Jannik Sinner — atualmente apontados como principais rostos da nova geração do tênis masculino — Nadal afastou previsões precipitadas. Segundo ele, o carioca ainda está nos primeiros passos de uma caminhada que costuma ser longa e repleta de desafios.
“Precisamos ver como ele vai se desenvolver. É cedo para colocá-lo nesse nível de disputa”, afirmou o espanhol, destacando que o atleta brasileiro “acabou de chegar” ao circuito principal. Para Nadal, a trajetória de qualquer jogador que sai da adolescência diretamente para o top 30 exige adaptação técnica, física e mental antes de sonhar com títulos de Grand Slam ou liderança no ranking.
Alcance rápido no ranking alimenta expectativas
A meteórica subida de João Fonseca gera comparações inevitáveis com outros fenômenos recentes, como Alcaraz, que conquistou o US Open aos 19 anos, e Sinner, campeão do Australian Open em 2024. Entretanto, os resultados de Fonseca, embora expressivos, ainda não incluem grandes troféus. Ele acumula quartas de final em torneios ATP 500 e duas semifinais em eventos ATP 250, performance suficiente para torná-lo o mais jovem brasileiro a entrar no top 25 desde que Gustavo Kuerten atingiu patamar semelhante em 1997.
Nadal reconheceu o mérito dessa escalada, mas reforçou que “manter consistência é outro passo”. Na visão do espanhol, a pressão externa costuma crescer na mesma proporção da empolgação do público e da imprensa, o que exige maturidade emocional dos atletas para atravessar altos e baixos de um calendário extenuante.
Contexto da atual supremacia no circuito
Ao analisar o cenário mais amplo do circuito masculino, Nadal afirmou que, por ora, a responsabilidade de pôr fim à hegemonia dos líderes do ranking recai sobre nomes que já frequentam o topo há mais tempo. “Seria preciso um Zverev em melhor condição física, um Medvedev igualmente em boa forma”, indicou o espanhol, lembrando que os dois abriram grande distância sobre a maioria dos concorrentes ao longo das últimas temporadas.
Alexander Zverev e Daniil Medvedev ocupam atualmente, respectivamente, a segunda e a terceira posição na lista da ATP. Embora tenham oscilado por questões físicas, ainda acumulam maior experiência em torneios de elite. Para Nadal, esse fator pode pesar quando os momentos decisivos da temporada chegarem.
Rotina de entrevistas e off-season movimentada
O período de pré-temporada é historicamente repleto de compromissos midiáticos para estrelas do tênis. Sem a pressão imediata de partidas válidas por ranking, atletas dispensam mais tempo a podcasts, transmissões de rádio e programas de televisão. Dessa forma, surgem perguntas que vão além de táticas de jogo, incluindo projeções para o futuro do esporte.
No caso de Fonseca, a curiosidade se intensificou após o brasileiro alcançar boas campanhas em superfície dura e no saibro, além de demonstrar agressividade no saque e consistência na base. Jornais espanhóis e italianos o citam como possível azarão em torneios do Grand Slam de 2026, mas Nadal preferiu não embarcar na onda de prognósticos.
Perfil de Fonseca impressiona, mas calma é a palavra-chave
Nascido no Rio de Janeiro, João Fonseca estreou no circuito profissional em 2023. Dois anos depois, já derrotou jogadores do top 20 e ex-campeões de Slam em eventos de menor peso. Seu estilo ofensivo, combinado com mobilidade acima da média para a idade, chama atenção de técnicos e ex-jogadores.

Imagem: Fábio Malvezzi
Mesmo assim, Nadal frisou que lesões, calendário exigente e pressão mental testam qualquer promessa. Para ele, o tapa final de maturidade passa pelo aprendizado a cada derrota, algo que todos os tenistas vivem. “O circuito mostra diariamente que nada está garantido. Você precisa trabalhar e evoluir sempre”, advertiu o ex-líder do ranking.
Paralelos com a própria carreira
Embora não tenha prolongado o assunto, as palavras de Nadal ecoam aspectos de sua própria história. O espanhol ganhou seu primeiro Roland Garros aos 19 anos, mas frequentemente relembra como a cautela na gestão de expectativas e o acompanhamento de uma equipe técnica experiente foram cruciais para superar obstáculos. Ao aconselhar paciência em relação a Fonseca, Nadal parece reviver o caminho que trilhou e reforçar a noção de que passos sólidos valem mais que saltos apressados.
Cenário brasileiro em perspectiva
Depois de Gustavo Kuerten, o tênis masculino do Brasil passou anos sem representantes fixos na elite. A chegada de João Fonseca ao top 30 reacendeu o interesse do público nacional e de patrocinadores. Escolas de formação relatam aumento de matrículas, e transmissões de torneios com participação do carioca têm registrado crescimento de audiência.
Dentro desse contexto, altos nomes do esporte mundial serem questionados sobre Fonseca reforça a curiosidade em torno do próximo capítulo do tênis brasileiro. Nadal, contudo, encerrou sua participação no El Larguero reiterando que “o tempo e o trabalho diário” serão os verdadeiros parâmetros para avaliar o potencial do jovem.
Por enquanto, Fonseca mantém rotina de treinamentos em quadras rápidas na Flórida, ajustando a preparação para o início da temporada em janeiro, com previsão de estreia em torneio ATP 250 na Oceania. O calendário inclui ainda passagens por eventos na América do Sul e no Masters 1000 de Indian Wells, metas que exigem manutenção do nível físico e técnico apresentado em 2025.
Expectativa sem pressa
A fala de Nadal, longe de diminuir a projeção em torno de Fonseca, acrescenta uma camada de realismo às expectativas. O espanhol relembrou que trajetórias como a de Alcaraz e Sinner, usadas como parâmetro, não são regra, e sim exceção. Ainda que o jovem brasileiro reúna atributos para ambicionar grandes voos, a prudência do “Touro Miúra” sugere que cada temporada deve ser encarada como etapa de aprendizado.
Caso mantenha a curva de crescimento, João Fonseca pode, em médio prazo, integrar o seleto grupo de candidatos a títulos de Slam. Até lá, os holofotes permanecerão divididos entre os veteranos que ainda lutam por espaço e a geração que bate à porta. O alerta de Nadal serve, portanto, como recado aos entusiastas: o esporte exige tempo para que talento e consistência se encontrem.
Resta acompanhar a evolução do brasileiro em 2026 e ver se ele confirmará o potencial que tantos enxergam. Se depender da opinião de Rafael Nadal, a torcida deve ser paciente — e Fonseca, focado em cada ponto jogado.
Com informações de Esportes.com.br
