O técnico Carlo Ancelotti aproveitou a participação no Summit CBF Academy, realizado nesta quarta-feira (26) em São Paulo, para fazer um balanço dos seus primeiros seis meses à frente da Seleção Brasileira. Durante a palestra, o italiano destacou que o país dispõe de “muito talento”, porém afirmou que qualidade individual, isolada, não é suficiente para conquistar a Copa do Mundo de 2026.
“Talento sozinho não ganha”
Em português ainda cadenciado, Ancelotti foi direto ao avaliar o cenário que encontrou desde a posse, em 26 de maio:
“Primeiro, muito talento. Construir talento não é possível; posso, sim, treiná-lo para sustentar. Hoje o talento só não ganha. Nos anos 70, Pelé podia decidir um Mundial sozinho. Agora, não. Nosso trabalho é dar todo o suporte para que esse talento esteja a serviço da equipe.”
O treinador explicou que o foco inicial do seu trabalho foi criar uma base tática capaz de potencializar a criatividade natural dos jogadores brasileiros. Segundo ele, a Seleção “já compreende” as exigências técnicas impostas pela comissão e evoluiu em campo desde as primeiras convocações.
Recado aos principais nomes
Sem citar atletas de forma individual, o comandante enviou uma mensagem clara aos líderes do elenco:
“Não vi equipe sem talento ganhar. Mas é preciso estrutura. Quero convocar jogadores que queiram ser os melhores do mundo, que queiram ganhar a Copa. Um grande jogador vira líder quando coloca seu talento a serviço do grupo.”
Ancelotti apontou ainda momentos recentes em que, a seu ver, a atitude da Seleção ficou abaixo do ideal. Para o italiano, corrigir lapsos de concentração será determinante na preparação até a competição nos Estados Unidos, Canadá e México.
Preparação mental em debate
A pouco mais de seis meses do Mundial – que começa em junho de 2026 –, o técnico reconheceu a necessidade de reforçar o trabalho psicológico dentro da concentração:
“O jogador jovem hoje tem muita responsabilidade. Precisamos estruturar bem equipe e CBF, inserir seriedade, profissionalismo e competência em todas as áreas. Isso passa por melhorar tática, preparação física e, sobretudo, o aspecto mental.”
O tema não é novo na rotina do selecionado. Nas primeiras reuniões com a diretoria, Ancelotti já havia pedido a contratação de profissionais dedicados exclusivamente ao suporte emocional dos atletas. A meta é permitir que cada convocado suporte a pressão histórica de vestir a camisa pentacampeã.
Clima mais leve após polêmica
Desta vez, o italiano se sentiu mais confortável no evento organizado pela Confederação Brasileira de Futebol. No início do mês, durante o 2º Fórum Brasileiro de Treinadores de Futebol, ele presenciou declarações xenófobas de Emerson Leão e Oswaldo de Oliveira direcionadas a estrangeiros no comando de times nacionais. Em São Paulo, o ambiente foi descrito por Ancelotti como “produtivo e respeitoso”.
Estrutura multidisciplinar
Ao detalhar a rotina da comissão, Ancelotti listou cinco pontos considerados vitais para a caminhada até 2026:
- Aprimoramento tático: sessões semanais por videoconferência com jogadores atuando no exterior;
- Preparação física específica: acompanhamento individual com dados fornecidos pelos clubes;
- Aspecto mental: psicólogos esportivos integrados ao planejamento de cada Data FIFA;
- Integração de categorias: observação de atletas do sub-20 para acelerar transição;
- Gestão de carga: contato direto com departamentos médicos das equipes europeias e brasileiras.
O treinador acredita que a soma desses fatores criará o “ambiente ideal” para que o talento brasileiro floresça sem perder competitividade frente a seleções fisicamente mais intensas.

Imagem: Imago
Amistosos confirmados para março
Como parte do cronograma, a CBF já definiu dois testes na próxima Data FIFA. O Brasil enfrentará a França e, na sequência, a Croácia. Datas, horários e locais ainda serão divulgados, mas a expectativa é aproveitar a janela para medir forças com adversários que chegaram longe no último Mundial.
Seis meses de trabalho
Desde que assumiu, Ancelotti comandou a Seleção em sete partidas, com retrospecto de cinco vitórias, um empate e uma derrota. Nos bastidores, dirigentes avaliam como positivas as primeiras ações, sobretudo na padronização dos treinamentos. O próprio técnico admite, entretanto, que o mais complexo está por vir.
“Ganhar a Copa depende de detalhes. Precisamos reduzir margem de erro e aumentar o espírito coletivo. É para isso que trabalhamos todos os dias.”
Desafios administrativos
Além do rendimento em campo, Ancelotti tem participado de reuniões periódicas com o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues, para debater melhorias na infraestrutura de treinamentos em Teresópolis e na logística de viagens. A intenção é evitar desgastes que prejudiquem rendimento técnico e mental.
Entre os pedidos do treinador estão a modernização do centro de análise de desempenho, a ampliação da área médica e a instalação de novos campos com gramado semelhante aos utilizados na América do Norte. A Confederação promete concluir as obras até o fim de 2025.
Talento a serviço da equipe
O discurso de Ancelotti resume-se a um ponto central: transformar a qualidade individual em performance coletiva. Para isso, ele confia na experiência acumulada em clubes como Milan, Real Madrid e Chelsea, onde geriu elencos estrelados, mas dependentes de um plano de jogo consistente.
Ao deixar o palco do Summit, o italiano recebeu o cumprimento de dirigentes, ex-jogadores e treinadores presentes. Perguntado sobre o principal recado que gostaria de transmitir ao torcedor, ele foi sucinto:
“Comprometimento total. É isso que a Seleção precisa e é isso que vamos ter.”
A preparação prossegue com mais um período de observação nos campeonatos europeus e nas finais da Copa do Brasil. Convocações para os amistosos de março estão previstas para o início de fevereiro de 2026.
Com informações de Trivela