São Paulo, 27 de novembro de 2025 – Pesquisadores da Universidade de Sevilha, na Espanha, descreveram com precisão as regiões cerebrais que parecem funcionar como epicentros das primeiras alterações estruturais em pessoas com transtornos do espectro da esquizofrenia (TEE). O trabalho, publicado na revista Nature Communications, examinou imagens de ressonância magnética de mais de 500 voluntários e identificou queda acentuada na semelhança morfológica entre áreas dos lobos temporal, cingulado e insular, locais fundamentais para o processamento cognitivo e emocional.

Quem participou do estudo

A equipe analisou 547 indivíduos no total, divididos em dois grupos: 195 adultos neurotípicos, sem diagnóstico psiquiátrico, e 352 pacientes que preenchiam critérios para diferentes manifestações do espectro esquizofrênico. Todos foram pareados por idade e sexo, o que permitiu contrastar diretamente as variações anatômicas observadas nos estágios iniciais da doença.

Ferramenta de análise morfológica

Para quantificar mudanças microscópicas na arquitetura do cérebro, os cientistas recorreram às chamadas redes de Divergência Inversa Morfométrica (sigla em inglês: MIND). O método calcula o grau de semelhança entre diferentes regiões a partir de características como espessura cortical, área de superfície e volume. Quanto menor o valor de MIND, menor a correspondência estrutural e maior a evidência de desconexão anatômica entre as áreas avaliadas.

Alterações localizadas e propagação por redes

Estudos anteriores já indicavam que diversos transtornos psiquiátricos emergem primeiro como alterações restritas e, gradualmente, atingem circuitos mais amplos por meio das vias de conectividade cerebral. No caso da esquizofrenia, esse padrão costuma incluir redução de espessura no córtex, diminuição do volume cortical e mudanças na área de superfície – sinais que refletem um processo de maturação cerebral atípica.

A novidade do trabalho espanhol está em delimitar precisamente quais regiões sofrem danos antes das demais. Segundo os autores, temporal superior, giro cingulado e ínsula exibem as maiores quedas de similaridade estrutural logo no início do transtorno. Essas áreas, classificadas como associativas de ordem superior, amadurecem mais tarde no desenvolvimento humano e são cruciais para funções cognitivas complexas, como integração sensorial, tomada de decisão e regulação emocional.

Resultados ligados à gravidade clínica

Além de localizar os epicentros de dano, os pesquisadores observaram que a magnitude da desconexão estrutural se correlaciona com o estado clínico dos participantes. Pacientes que apresentavam sintomas mais graves ou curso mais debilitante exibiram valores de MIND ainda menores nas mesmas regiões associativas, sugerindo que a progressão da doença intensifica a perda de integridade morfológica nesses pontos-chave.

Relação com marcadores neurobiológicos

Para entender os mecanismos implicados, o grupo correlacionou 46 marcadores neurobiológicos previamente mapeados no cérebro humano com as áreas de maior comprometimento. Entre eles, destacam-se:

  • Alta densidade de astrócitos, células gliais responsáveis pelo suporte metabólico dos neurônios;
  • Alterações nos sistemas de neurotransmissores dopaminérgicos e serotoninérgicos, frequentemente associados à esquizofrenia;
  • Padrões de expressão gênica ligados a processos inflamatórios e de maturação sináptica.

Segundo a equipe, a combinação desses fatores pode tornar determinadas regiões mais vulneráveis a modificações estruturais que, se não estancadas, tendem a se alastrar pela rede cerebral.

Potencial para biomarcadores e terapias personalizadas

A identificação de epicentros anatômicos no início da esquizofrenia abre caminho para a criação de biomarcadores estruturais capazes de antecipar o diagnóstico ou monitorar a eficácia de intervenções. “Ao sabermos onde o dano começa, podemos avaliar se um tratamento experimental consegue proteger especificamente essas regiões”, explicam os autores no artigo.

Além disso, modelagens baseadas na conectividade MIND podem orientar estratégias personalizadas, definindo quais pacientes têm maior risco de progressão rápida e, portanto, poderiam se beneficiar de abordagens mais intensivas desde o primeiro episódio psicótico.

Importância das áreas temporais, cinguladas e insulares

O lobo temporal, sobretudo a porção superior, integra informação auditiva e linguística, além de participar de processos de memória. Já o giro cingulado desempenha papel central na regulação da atenção, no controle executivo e no processamento de emoção. A ínsula, por sua vez, atua na percepção interoceptiva e na integração de estados afetivos, sendo considerada um hub que conecta redes sensoriais e cognitivas.

A disfunção coordenada de tais regiões poderia explicar sintomas característicos da esquizofrenia, como alucinações auditivas, dificuldade de filtragem de estímulos externos, alterações de afeto e déficits na tomada de decisão social.

Metodologia passo a passo

O protocolo incluiu:

  1. Coleta de imagens de ressonância magnética de alta resolução de todos os participantes;
  2. Processamento das imagens para extração de medidas morfométricas padrão (espessura cortical, área, volume);
  3. Construção de matrizes de similaridade MIND entre 68 regiões corticais por hemisfério;
  4. Comparação estatística dos valores de MIND entre o grupo neurotípico e o grupo TEE, controlando idade, sexo e variáveis de scanner;
  5. Mapeamento de correlações entre as regiões com maior efeito e os 46 marcadores histológicos e moleculares disponíveis em atlas pós-mortem de referência.

Limitações e próximos passos

Os autores reconhecem que o estudo é transversal, o que impede inferir causalidade direta entre as alterações morfológicas iniciais e a evolução clínica a longo prazo. Planos futuros incluem acompanhar a mesma coorte em exames seriados, investigando se as variações detectadas de modo precoce predizem o surgimento de sintomas ou a resposta a diferentes terapias farmacológicas e psicossociais.

Outra frente de pesquisa envolverá testes de intervenções que visem modificar a atividade neuronal ou glial nas áreas temporais, cinguladas e insulares, a fim de verificar se a preservação dessas regiões altera o curso típico do transtorno.

Contexto da esquizofrenia

Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que a esquizofrenia afeta cerca de 24 milhões de pessoas globalmente, com início predominante no final da adolescência ou na fase inicial da vida adulta. Sintomas podem variar de delírios e alucinações a déficits cognitivos persistentes, impactando escolaridade, vínculos sociais e autonomia laboral.

Terapias atuais combinam antipsicóticos, intervenções psicossociais e, em alguns casos, estimulação cerebral não invasiva. Entretanto, uma parcela considerável de pacientes apresenta resposta parcial ou efeitos adversos relevantes, o que reforça a necessidade de marcadores que orientem medicamentos e abordagens individualizadas.

Repercussão na comunidade científica

Especialistas externos não ligados ao estudo consideram o mapeamento de epicentros um avanço na compreensão do substrato anatômico inicial da esquizofrenia. Para eles, a técnica MIND fornece uma métrica robusta de organização cortical que complementa análises genéticas, funcionais e de conectividade de fibras brancas.

Apesar do entusiasmo, pesquisadores ressaltam que a aplicação clínica dependerá de validações independentes e de protocolos padronizados nos sistemas de imagem hospitalar. Caso se confirme, o rastreio das regiões temporais, cinguladas e insulares poderia integrar baterias de exames em serviços especializados, auxiliando decisões sobre início precoce de tratamento.

Próximas implicações: a proposta de usar essas descobertas como biomarcador ainda exige estudos longitudinais, mas representa uma etapa estratégica rumo à medicina de precisão na psiquiatria, campo historicamente desafiado pela ausência de sinais anatômicos claros.

O trabalho da Universidade de Sevilha agrega, portanto, mais uma peça ao quebra-cabeça da esquizofrenia, detalhando onde, quando e como o cérebro começa a divergir de seu curso típico. Embora muitas perguntas permaneçam, os dados apresentados alimentam a expectativa de intervenções mais precoces e direcionadas, capazes de reduzir o impacto da doença na vida de milhões de pessoas.

Com informações de Olhar Digital

By bugou

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