BUENOS AIRES – O calendário marca 25 de novembro de 2025. Exatos cinco anos se passaram desde que Diego Armando Maradona morreu, em 2020, por insuficiência cardíaca. A ausência física, porém, não impediu que o lendário camisa 10 continuasse presente no cotidiano dos argentinos. Murais, memoriais, restaurantes temáticos, congressos acadêmicos e até objetos pessoais oferecidos como promessas confirmam que, para muitos, Diego não partiu: apenas mudou de dimensão.
A devoção no bairro onde tudo começou
A principal romaria deste aniversário de cinco anos ocorreu em La Paternal, zona oeste da capital, endereço do estádio do Argentinos Juniors. Foi ali que Maradona estreou como profissional, em 1976, e é ali que hoje funciona um memorial aberto diariamente ao público. Já na fachada, o nome da praça esportiva anuncia a reverência: Estadio Diego Armando Maradona. Dentro, um espaço transformado em santuário abriga camisetas, fotografias, cachecóis, bandeiras – inclusive uma verde-amarela levada por turistas brasileiros –, diplomas, currículos, dinheiro e até cartões de crédito. Tudo entregue como oferenda ou agradecimento.
O barulho habitual de um estádio dá lugar ao silêncio. Fiéis acendem velas, recitam orações ou fazem pedidos. “Muitos visitantes sentem o Diego como alguém vivo”, relata o guia Jaime, responsável pelas visitas guiadas ao museu do Argentinos Juniors. “Brasileiros aparecem com tatuagens dele. Ele ultrapassou fronteiras.”
Entre os pedidos curiosos catalogados pelo guia está o de um jovem aspirante a atleta: “Diego, peço que me ajude com este esporte que amo tanto quanto você”. Outra devoção chama atenção: o diploma de uma recém-formada em Direito, depositado em agradecimento por ter concluído o curso após uma promessa feita ao craque.
A mesa reservada para Diego
A poucos metros do estádio, um restaurante ajuda a explicar como o ídolo se confunde com o bairro. Fundado como a primeira pizzaria de La Paternal, o estabelecimento foi frequentado por Maradona nas décadas de 1970 e 1980, quando ainda vestia a camisa do “Bicho”. Hoje, atende pelo nome La Cafetería de Dios. Fotos históricas do jogador comendo no local, bandeiras e um pequeno altar decoram o salão. “Era impossível atender a todos os torcedores que vinham pedir autógrafos. Muitas vezes tivemos de fechar as portas para ele conseguir jantar”, recorda a proprietária.
No cardápio, alfajores e panetones levam a marca do ex-camisa 10. Pratos recebem nomenclaturas que remetem a gols históricos ou clubes onde atuou. Turistas lotam o espaço diariamente em busca de uma experiência que mescla culinária e devoção futebolística.
Rota gastronômica maradoniana
A imagem de Diego também tempera outros endereços gastronômicos da cidade. Na região turística do Caminito, em La Boca, o Lo Del Diego funciona como museu-restaurante. Salões separados homenageiam Boca Juniors, Barcelona, Napoli e a seleção argentina. Nas paredes, caricaturas, recortes de jornais e réplicas de troféus. No balcão, souvenirs: camisas, ímãs, miniaturas da camisa 10.
Do outro lado da capital, em Belgrano, a franquia oficial Igual a Nadie (Igual a ninguém) exibe licenciamento direto da marca Maradona. Além de um grande mural formado por camisetas usadas pelo craque ao longo da carreira, o menu presta tributos culinários aos locais por onde ele passou: massas e pizzas evocam Nápoles; frutos-do-mar lembram Barcelona; cortes de carne celebram a Argentina. No setor de carnes, o Bife Shilton faz alusão ao goleiro inglês Peter Shilton, vítima dos dois gols eternizados nas quartas de final da Copa de 1986: “La mano de Dios” e “El gol del siglo”.
Arte a céu aberto
Quem chega ao Aeroporto Internacional de Ezeiza recebe as boas-vindas de um mural gigante de Maradona em um edifício próximo à principal via de acesso à capital. A pintura é apenas a primeira de uma série espalhada por Buenos Aires. Fachadas de quiosques, empenas de prédios, muros residenciais e até paredes de estabelecimentos alheios ao futebol ostentam a face do eterno 10.
Nos arredores do estádio do Argentinos Juniors, o percurso até a entrada é ladeado por grafites que contam cronologicamente a trajetória do craque: infância em Villa Fiorito, estreia pelo “Bicho”, conquistas com a Albiceleste. Artistas de rua atualizam constantemente as pinturas, mantendo a memória fresca para moradores e visitantes.

Imagem: Internet
Diego também é assunto de universidade
A devoção ultrapassa o campo artístico e desembarca na academia. Em 2025, a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (UBA) organizou o primeiro congresso inteiramente dedicado a Maradona. Jornalistas, ex-jogadores, pesquisadores e familiares se reuniram para debater a influência cultural, esportiva e política do ídolo. Mesas-redondas, exibição de documentos e instalações multimídia compuseram a programação.
Entre os itens expostos, a chamada Bíblia Maradoniana despertou curiosidade. O livro, desenvolvido pela Iglesia Maradoniana – movimento com sede em Rosário que venera Diego como divindade – reúne “evangelhos” baseados em suas frases célebres. A organização pede reconhecimento oficial da Igreja Católica, mas, por ora, concentra fiéis espalhados por todo o país.
Turismo religioso-futebolístico
O movimento de estrangeiros confirma que a “fé” em Diego se internacionaliza. Jaime, o guia do museu do Argentinos Juniors, afirma que o percentual de visitantes brasileiros aumentou nos últimos anos. Muitos exibem tatuagens com o rosto ou a assinatura do craque e, segundo ele, chegam a Buenos Aires motivados exclusivamente por um roteiro maradoniano. Pacotes turísticos incluem passagem pelo memorial em La Paternal, almoços nos restaurantes temáticos e visita guiada a La Bombonera, onde Maradona brilhou com a camisa do Boca.
“Ele transcendeu a fronteira”, resume Jaime, ecoando a convicção popular de que Maradona pertence não apenas à Argentina, mas ao imaginário futebolístico global.
Cinco anos depois, “Diego vive”
Ao longo do dia 25 de novembro de 2025, vigílias, partidas de futebol amadoras, exibição de documentários e shows musicais lembraram o craque em diferentes pontos da capital. No memorial do Argentinos Juniors, uma multidão formou fila para deixar recordações. No Obelisco, torcedores exibiram bandeiras com a inscrição “Diego vive”. Em La Bombonera, crianças da escolinha de base do Boca entraram em campo usando a camisa 10.
À medida que o sol se pôs sobre Buenos Aires, velas acesas nos degraus do estádio em La Paternal iluminaram as palavras que resumem o sentimento coletivo: “Gracias, Diego”. A frase, repetida em murais, camelôs, cardápios e estudos acadêmicos, sustenta a ideia de que, mesmo após cinco anos de sua morte, o maior ídolo da história do futebol argentino segue – para muitos – vivo e onipresente.
Com informações de Trivela