O crescimento acelerado do futebol na Arábia Saudita, impulsionado por contratos milionários para atrair estrelas internacionais, acendeu um sinal de alerta entre autoridades esportivas locais. O príncipe Abdullah bin Mosaad, ex-ministro de Esportes e integrante da família real, afirmou que apenas Cristiano Ronaldo justifica os valores desembolsados pelos clubes sauditas e advertiu que o atual modelo pode “implodir” o ecossistema do esporte no país.
Ronaldo é exceção, diz Abdullah
Contratado em janeiro de 2023 pelo Al-Nassr, Cristiano Ronaldo recebe um salário anual estimado em 211 milhões de dólares (cerca de R$ 1,1 bilhão), segundo a agência Reuters. Em entrevista ao programa Fi Al-Marama, da emissora Al-Arabiya, Abdullah sustentou que o retorno de exposição global trazido pelo português compensa o investimento. “Ronaldo é o único jogador estrangeiro que vale o valor por causa da visibilidade que entrega à liga e ao país. Muitos outros estão sendo pagos muito acima do que merecem”, declarou o dirigente.
Desde a chegada de CR7, clubes sauditas intensificaram as contratações de nomes consagrados na Europa. Neymar deixou o Paris Saint-Germain rumo ao Al-Hilal, Karim Benzema trocou o Real Madrid pelo Al-Ittihad e, mais recentemente, o zagueiro Iñigo Martínez reforçou o próprio Al-Nassr. As cifras oferecidas, frequentemente superiores às praticadas nas principais ligas europeias, são apontadas pelo governo como aceleradoras do processo de internacionalização da Saudi Pro League.
Salários fora da curva atraem atletas
Iñigo Martínez relatou à rádio espanhola Onda Vasca o impacto de receber uma proposta “astronômica”. “Quando vemos a oferta, não dá para acreditar. Ninguém está preparado para esse tipo de contrato, pelo menos eu não. Fui apenas mais um jogador que subiu degrau a degrau, mas quando chega algo assim o choque é grande, sobretudo para a família”, confessou o zagueiro.
Outro exemplo é Abdoulaye Doucouré, ex-Everton. Ao aceitar defender o Neom SC, o meio-campista disse que a proposta saudita superava com larga margem o que o clube da Premier League oferecia. “A diferença era enorme”, resumiu.
Esses depoimentos ilustram a estratégia de usar o poder financeiro para movimentar o mercado. Para Abdullah, no entanto, a política de abrir os cofres sem restringir o número de contratações internacionais já provoca efeitos colaterais.
Jogadores locais perdem espaço
Hoje, os regulamentos da Saudi Pro League permitem que cada equipe utilize até oito estrangeiros por partida. O ex-ministro defende redução imediata para sete e a criação de mecanismos que garantam minutos em campo para atletas sauditas. “Nossos jogadores viraram figurantes. Isso não pode continuar se queremos preservar a identidade do nosso futebol”, advertiu.
Ele citou ainda a necessidade de investir em programas de base e em centros de formação, argumentando que a elite atual do país dificilmente chegará à Copa de 2034, quando a Arábia Saudita sediará o torneio. “Precisamos de um plano claro. Construir uma liga forte não pode acontecer às custas da seleção nacional”, declarou.
Pressão por resultados até 2034
Em outubro de 2023, a FIFA confirmou a Arábia Saudita como candidata única para organizar o Mundial de 2034, decisão que deverá ser ratificada nos próximos anos. O governo local vê na competição uma vitrine para diversificar a economia e ampliar o “soft power” do país, mas, para Abdullah, a presença de atletas estrangeiros não deve suplantar o desenvolvimento da mão de obra nacional. “Se chegarmos lá sem um time competitivo, teremos falhado”, advertiu.
Dados internos da federação saudita indicam que, nas últimas duas temporadas, minutos em campo de jogadores locais caíram cerca de 23 % nos principais clubes, enquanto gastos com salários de estrangeiros subiram acima de 60 %. Embora esses números não tenham sido confirmados oficialmente, refletem a percepção de desequilíbrio dentro das agremiações.
Mercado segue aquecido
Mesmo com críticas, a janela de transferências no Oriente Médio segue alavancada. Intermediários revelam que propostas a atacantes, meias e defensores em fim de contrato na Europa continuam a chegar com cifras duplas ou triplas em relação a salários de clubes do chamado “Big Five” – Inglaterra, Espanha, Itália, Alemanha e França. Além disso, a isenção de impostos pessoais em alguns emirados do Golfo e incentivos estatais no financiamento de estádios e centros de treinamento mantêm o mercado competitivo.

Imagem: Imago
Abdullah reconhece que grandes nomes aumentam a visibilidade televisiva, mas pede um equilíbrio. Ele sugere um teto salarial escalonado, com faixas específicas para jogadores sauditas e para estrangeiros, além de cotas mínimas de atletas formados no país. “Se não ajustarmos, corremos o risco de implodir financeiramente e tecnicamente”, sintetizou.
Clube-Empresa no centro da discussão
A expansão do modelo “clube-empresa”, respaldada pelo Programa de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita, foi decisiva para garantir fluxo de caixa às negociações. Al-Nassr, Al-Hilal, Al-Ittihad e Al-Ahli, entre outros, receberam aportes diretos do fundo soberano. Abdullah avalia, porém, que a sustentabilidade desses investimentos deve vir acompanhada de regras claras de governança e de um planejamento esportivo “que vá além do marketing”.
Especialistas internacionais apontam que, enquanto os clubes sauditas continuarem a pagar valores inéditos, a liga conquistará audiência e fechará acordos de transmissão. A dúvida, segundo analistas consultados pelo ex-ministro, é se esse modelo resistirá após a Copa de 2034, quando o ciclo de exposição global pode diminuir e as receitas de patrocínio se estabilizarem.
Seleção como termômetro
O desempenho da seleção saudita será observado de perto como indicador do sucesso ou fracasso da estratégia. Na Copa de 2022, disputada no Catar, o time conquistou vitória histórica sobre a Argentina, mas não avançou além da fase de grupos. Para 2026, a meta é chegar às oitavas de final, e, em 2030, alcançar as quartas. “Sem base forte, esses objetivos ficam inalcançáveis”, pontuou Abdullah.
Enquanto o debate sobre limites de estrangeiros e controle de gastos se intensifica, Cristiano Ronaldo segue como principal atração da liga. O Al-Nassr lidera as receitas de marketing e direitos de imagem, fator usado por seus dirigentes para justificar o salário do português. O próprio Abdullah admite que a presença do astro facilita a venda de pacotes de TV e atrai patrocinadores, mas insiste que o modelo não pode ficar restrito a “um nome de peso rodeado de coadjuvantes caros”.
Próximos passos
A federação saudita deve discutir ajustes no regulamento já na próxima assembleia geral, marcada para o primeiro trimestre de 2026. Entre as propostas estão: redução gradual do limite de estrangeiros para sete, obrigatoriedade de ao menos dois jogadores sub-23 sauditas no onze inicial e criação de um fundo para financiar categorias de base. As medidas contam com apoio de Abdullah, mas enfrentam resistência de clubes influentes, receosos de perder competitividade internacional.
Apesar das divergências, o consenso é que a pressão por um futebol sustentável aumenta conforme o relógio avança para 2034. Se depender do ex-ministro, o futuro do esporte saudita não deve ficar atrelado apenas ao brilho de Cristiano Ronaldo, mas sim a um sistema capaz de revelar novos talentos locais e equilibrar as finanças da liga.
Com informações de Trivela