Brasília — O Conselho de Administração da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) aprovou, na sexta-feira (28), a contratação de um empréstimo de R$ 20 bilhões para reforçar o caixa e sustentar o plano de reestruturação da estatal.
De acordo com a ECT, a operação contará com garantia do Tesouro Nacional, mas a liberação dos recursos ainda depende de autorização da Secretaria do Tesouro, vinculada ao Ministério da Fazenda. A projeção da companhia é receber a primeira metade do montante — R$ 10 bilhões — até o fim deste ano. Os R$ 10 bilhões restantes deverão ser liberados em 2026, divididos em duas parcelas de R$ 5 bilhões cada.
Crise financeira se aprofunda
Os Correios atravessam um período prolongado de dificuldades. Até setembro, o déficit acumulado chegou a R$ 6 bilhões. A direção calcula que, sem medidas emergenciais, o rombo pode alcançar R$ 10 bilhões em 2025, superando em mais de R$ 7 bilhões o resultado negativo estimado para 2024. Em comunicado interno, a estatal classificou o empréstimo como “indispensável para a transição estrutural” da empresa.
Quando anunciou o plano de recuperação, em outubro, o presidente da ECT, Emmanoel Rondon, destacou que a queda de receita vem prejudicando a operação em várias frentes, inclusive o pagamento de fornecedores. “Nos últimos anos, a perda de market share e de competitividade vem reduzindo a receita. Esse impacto no caixa prejudica a operação e alimenta um ciclo negativo”, afirmou.
Condições da operação
Segundo apuração da TV Globo citada pela estatal, o empréstimo deve ser contratado a juros superiores a 120% do Certificado de Depósito Interbancário (CDI). Integrantes do governo consideram a taxa elevada para operações com aval do Tesouro. Em nota divulgada neste sábado (29), a empresa informou que os termos financeiros “ainda estão sendo discutidos com as instituições envolvidas” e, por ora, não podem ser detalhados.
Três fases para reverter prejuízos
A tomada de crédito compõe um conjunto de ações aprovado recentemente pelo Conselho de Administração. O planejamento, dividido em três etapas, combina iniciativas de redução de custos, modernização de processos e busca de novas fontes de receita.
1. Colocar a casa em ordem (2024-2025)
Nesta primeira fase — já em curso — a ECT pretende regularizar pagamentos a fornecedores, revisar contratos e implementar um novo Programa de Demissão Voluntária (PDV). Também estão previstos ajustes no plano de saúde dos funcionários, administrado pelo Postal Saúde.
2. Reorganizar e modernizar (2026-2027)
No segundo momento, a companhia avaliará o fechamento de até 1 000 agências consideradas deficitárias. A venda de imóveis ociosos é outro pilar: estima-se arrecadar até R$ 1,5 bilhão com a alienação desses ativos. O plano inclui, ainda, investimentos em automação e tecnologia para aprimorar a logística e reduzir custos operacionais.
3. Retomar o crescimento (a partir de 2027)
A etapa final projeta a adoção de novos modelos de negócio, contratos e parcerias que tornem os Correios mais competitivos no setor logístico. A meta da direção é voltar a registrar lucro em 2027.
Uso dos recursos
Durante a apresentação do programa de recuperação, Rondon explicou que o empréstimo servirá para cobrir obrigações imediatas e financiar ajustes que só devem produzir efeitos a partir de 2026. “A operação dá fôlego para equilibrar as contas em 2025 e 2026, permitindo que as ações de reestruturação gerem resultado em 2027”, afirmou.
Conforme relatórios internos, parte dos recursos será usada para honrar compromissos com fornecedores, atualizar a malha logística, implementar sistemas de automação em centros de distribuição e custear indenizações do PDV. A empresa não detalhou qual parcela do crédito será destinada a cada finalidade.
Fechamento de agências e PDV
A possibilidade de encerrar até 1 000 agências preocupa funcionários e sindicatos. A direção afirma que as unidades visadas operam com baixa demanda ou prejuízo. Ao mesmo tempo, o PDV deverá ser aberto para empregados que atenderem a critérios de idade e tempo de serviço. O número de adesões esperado não foi divulgado.
Garantia do Tesouro
O aval da União é condição essencial para obtenção de juros mais favoráveis. O Ministério da Fazenda, entretanto, ainda analisa o impacto fiscal da fiança. Caso aprove a garantia, o governo assume a responsabilidade pelo pagamento em caso de inadimplência da estatal.

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Previsão de resultados
Relatórios encaminhados ao conselho projetam que, com a execução integral do plano e a captação dos R$ 20 bilhões, a ECT reduzirá o déficit gradualmente, chegando ao equilíbrio em 2027. Sem a intervenção, o prejuízo poderia ultrapassar R$ 23 bilhões já em 2026, segundo estimativas internas.
Para demonstrar a urgência, a área financeira apresentou cenários que consideram variações de mercado, evolução da concorrência e custos trabalhistas. Nos modelos pessimistas, a participação da ECT no mercado de encomendas continuaria em queda, comprometendo ainda mais as receitas.
Próximos passos
Após a aprovação do conselho, o próximo passo é negociar as condições finais com bancos públicos e privados. Paralelamente, a Secretaria do Tesouro avaliará o risco da operação e deverá submeter a concessão da garantia a despacho do ministro da Fazenda. A expectativa da empresa é concluir o processo burocrático em tempo de receber a primeira tranche antes do fechamento do exercício de 2024.
Embora reconheça o custo elevado da dívida, a diretoria argumenta que a falta de liquidez representa risco maior. “Sem capital, não conseguimos garantir a qualidade do serviço nem implementar as mudanças estruturais necessárias”, afirmou um executivo que participa das negociações.
Contexto do setor
O avanço do comércio eletrônico ampliou a demanda por entregas rápidas, mas também intensificou a concorrência. Empresas privadas investiram pesado em tecnologia e integração logística, pressionando a fatia de mercado dos Correios, que permanece obrigada a cumprir obrigações de universalização do serviço postal. A estatal atribui parte do desequilíbrio financeiro a esse duplo desafio: competir em preços e prazos enquanto mantém presença em municípios menos rentáveis.
Adicionalmente, o aumento de custos com pessoal — sobretudo plano de saúde e previdência complementar — e a defasagem tecnológica dos centros de triagem contribuíram para o agravamento das contas. O plano de reestruturação tenta atacar esses pontos, combinando enxugamento de despesas com modernização da operação.
Enquanto a captação não se concretiza, a empresa continua renegociando contratos com fornecedores e ajustando cronogramas de entrega de encomendas. Internamente, gestores reconhecem que 2024 será “ano de sobrevivência”, mas sustentam que a trajetória se inverte a partir de 2025, condicionada à entrada dos recursos e à execução disciplinada do plano.
O Conselho de Administração acompanha o cronograma por meio de relatórios mensais. Caso as metas de redução de despesas e melhoria de eficiência não sejam atingidas, novas medidas de ajuste poderão ser apresentadas.
Com a aprovação do empréstimo, a estatal dá um passo decisivo para enfrentar seu maior desafio financeiro em décadas. Agora, todas as atenções se voltam para o Ministério da Fazenda, cujo aval é determinante para a liberação dos recursos e, consequentemente, para a viabilização de um projeto que pretende reposicionar os Correios no mercado logístico nacional.
Com informações de G1