A Amazon passou a oferecer, em caráter experimental, uma ferramenta de inteligência artificial (IA) que traduz livros publicados no Kindle Direct Publishing (KDP), sua plataforma de autopublicação. O recurso, divulgado há poucos dias aos usuários, permite que autores gerem versões em outros idiomas sem qualquer custo adicional, ampliando o alcance potencial de suas obras.

Recurso liberado para grupo restrito

Por enquanto, a funcionalidade se encontra em fase de testes e está disponível apenas para um número limitado de escritores cadastrados no KDP. Nessa etapa inicial, a companhia incluiu apenas três combinações de idiomas: do inglês para o espanhol, do espanhol para o inglês e do alemão para o inglês. A empresa não informou quantos autores participam do piloto nem detalhou os critérios de seleção.

De acordo com dados fornecidos pela própria Amazon, menos de 5 % dos títulos comercializados em seu site contam com versões em mais de um idioma. A meta declarada da gigante do comércio eletrônico é elevar essa proporção, reduzindo barreiras linguísticas para leitores e ampliando as possibilidades de receita para escritores independentes.

Potencial de expansão

Embora a companhia não tenha divulgado um cronograma, a expectativa é que novas línguas sejam acrescentadas ao longo dos próximos meses, caso a fase beta apresente resultados satisfatórios. A Amazon tampouco detalhou qual tecnologia de IA sustenta o tradutor nem se a ferramenta utiliza modelos de linguagem próprios ou soluções de parceiros externos.

O lançamento renova discussões recorrentes no mercado editorial sobre os impactos da inteligência artificial na produção e na distribuição de conteúdo. Ferramentas de tradução automática estão em uso há anos em segmentos técnicos e corporativos, mas sua adoção em obras literárias permanece motivo de debate, sobretudo quanto à qualidade do texto final.

Tradução de textos informativos x literatura

Para comentaristas do setor, a tecnologia já atende de forma razoável a textos objetivos, como manuais ou publicações estritamente informativas, em que a preocupação principal é a clareza da mensagem. A transposição de romances, contos e poesias, entretanto, exige domínio de ritmo, tom e nuances que, segundo especialistas, ainda escapam aos algoritmos.

O colunista responsável pela análise que revelou a nova função recordou ter testado diferentes serviços de IA ao traduzir o parágrafo inicial de “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa, para o inglês. O resultado, descrito como “burocrático” e “pífio”, evidenciou, na avaliação dele, as limitações atuais das máquinas para obras literárias de alta complexidade linguística.

Questionamentos semelhantes envolvem autores como Clarice Lispector, Jon Fosse, Carolina Maria de Jesus, Cormac McCarthy e Mircea Cărtărescu. Críticos se perguntam se uma inteligência artificial seria capaz de reproduzir, em outra língua, as sutilezas de estilo presentes nesses escritores sem comprometer a experiência de leitura.

Reivindicações de tradutores

A chegada de novas soluções tecnológicas também reacende a pauta de profissionais humanos. Em manifesto intitulado “Quem Traduziu”, tradutores brasileiros defendem que a tradução literária seja reconhecida legalmente como trabalho autoral, conforme o estabelecido pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610/1998). O mesmo documento reúne reivindicações sobre remuneração, crédito nas capas e prazos mais justos.

No mês passado, a revista Piauí publicou reportagem mostrando que atrasos de pagamento e inadimplência por parte de editoras ainda afetam o segmento. Para esses profissionais, a valorização do trabalho humano deve caminhar junto ao debate sobre avanços em inteligência artificial, a fim de evitar precarização.

Como funciona o KDP

Lançado em 2007, o Kindle Direct Publishing oferece a qualquer pessoa a possibilidade de publicar ebooks e livros físicos por demanda. O autor define preço, controla metadados e recebe até 70 % de royalties sobre as vendas digitais, dependendo da região e do valor escolhido. Hoje, o serviço é considerado uma das principais portas de entrada para novos escritores no mercado mundial.

Com a ferramenta de IA, a Amazon pretende agilizar a internacionalização de catálogos independentes, atraindo público de diferentes países sem exigir que o autor contrate um tradutor. Apesar disso, a empresa não esclareceu se as traduções geradas passarão por revisão humana antes da distribuição nem apontou se haverá selo específico indicando o uso de inteligência artificial no processo.

Próximos passos

Autoridades de países onde a Amazon atua acompanham a evolução do tema, inclusive sob o ponto de vista de direitos autorais. Caso a plataforma permita que usuários traduzam obras de terceiros sem autorização, podem surgir disputas judiciais. Até o momento, porém, a companhia limita o recurso aos próprios criadores das obras, o que reduz esse risco.

Consultada sobre quando o recurso deixará de ser beta, a empresa disse apenas que fará ajustes conforme o retorno dos autores selecionados. Também não há indicação de que o tradutor automático será integrado a outros serviços da marca, como o Audible ou a loja principal de e-books, onde títulos de editoras tradicionais são comercializados.

Para os escritores que participam da fase de testes, a tradução pode ser concluída em poucos minutos, dependendo da extensão do original. Depois de revisado, o texto gerado é disponibilizado como nova edição dentro da mesma página do livro, mantendo avaliações e classificações já recebidas. Assim, o autor agrega novos mercados sem criar listagens separadas.

Observadores do setor avaliam que, caso o sistema se prove eficaz para romances de leitura mais linear, o modelo tende a atrair autores de não ficção, guias, manuais e literatura de entretenimento. Ainda assim, a recepção do público leitor e das comunidades de tradutores profissionais será crucial para definir a expansão da ferramenta a obras literárias de maior sofisticação formal.

Em nota divulgada aos usuários participantes, a Amazon afirmou acreditar que a iniciativa “ajudará a conectar histórias com novos leitores em todo o mundo”, reforçando que continuará “trabalhando em melhorias de qualidade” antes de ampliar o acesso. Até lá, permanece em aberto o debate sobre o equilíbrio entre velocidade, custo e fidelidade artística nas traduções realizadas por inteligência artificial.

Com informações de UOL

By bugou

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