Um número crescente de pesquisas indica que o equilíbrio de microrganismos que habitam a vagina tem influência direta na saúde reprodutiva e geral das mulheres. Estudos associam a predominância de Lactobacillus – grupo de bactérias que produz ácido lático – à redução de infecções sexualmente transmissíveis, menor risco de aborto, prevenção de parto prematuro e até menor probabilidade de câncer do colo do útero.
Ecossistema delicado
Desde a infância, a vagina abriga milhares de bactérias, fungos e vírus que competem por espaço e nutrientes. Na puberdade, o aumento de estrogênio favorece a instalação de Lactobacillus, considerados protetores porque:
• ocupam nichos que poderiam ser tomados por patógenos;
• produzem ácido lático, tornando o ambiente hostil para micróbios nocivos;
• fabricam substâncias antimicrobianas e modulam a imunidade local.
Segundo Chrysi Sergaki, chefe de microbioma da Agência Reguladora de Medicamentos e Produtos de Saúde do Reino Unido (MHRA), essas bactérias “competem por nutrientes, dificultam a fixação de germes prejudiciais e ainda liberam antibióticos naturais”.
Desequilíbrio aumenta vulnerabilidade
Quando a população de Lactobacillus diminui, instala-se a disbiose vaginal. Nessa situação, crescem as chances de:
- vaginose bacteriana (VB);
- candidíase;
- infecções urinárias;
- contágio por HIV, clamídia, gonorreia, sífilis e papilomavírus humano (HPV).
Laura Goodfellow, pesquisadora da Universidade de Liverpool, observa que, em Cidade do Cabo, onde a prevalência de HIV varia de 20% a 30%, profissionais do sexo com maior proporção de Lactobacillus têm menos probabilidade de contrair o vírus.
A escassez dessas bactérias também está ligada à demora para eliminar o HPV, principal causa de tumores do colo do útero, vagina e vulva. “O microbioma funciona como uma floresta”, compara Goodfellow. “Se o ecossistema está inteiro, sementes ruins não germinam; quando há clareiras, ervas daninhas proliferam.”
Impacto na gestação
Mulheres com disbiose apresentam risco mais alto de:
- aborto espontâneo;
- gravidez ectópica;
- parto prematuro (antes de 37 semanas).
A presença de Lactobacillus crispatus, em especial, está associada a menor incidência de nascimento pré-termo. Outra bactéria benéfica, Bifidobacterium – encontrada em menos de 5% das mulheres – também pode proteger contra o parto antecipado.
Para fertilização in vitro (FIV), dados preliminares sugerem que a disbiose reduz ligeiramente a taxa de sucesso.
Uma das explicações para essas correlações é a inflamação. Amostras vaginais com abundância de Lactobacillus contêm menos proteínas inflamatórias. Em contrapartida, o excesso de resposta imune pode desencadear perda gestacional ou rompimento prematuro das membranas.

Imagem: Internet
Ensaios clínicos com probióticos
Pesquisadores do Imperial College London coordenam um estudo que avalia se o probiótico Lactin-V, composto por L. crispatus vivo, diminui a taxa de parto prematuro em grávidas de alto risco. Experimentos iniciais comprovaram que a suplementação muda o microbioma vaginal e que o sangue tipo A parece favorecer naturalmente a colonização por L. crispatus, ao passo que os tipos B e O se associam a maior probabilidade de parto prematuro.
Paralelamente, equipes no Reino Unido, Estados Unidos e África do Sul investigam se o mesmo produto pode proteger mulheres vulneráveis ao HIV.
Diagnóstico personalizado
Sergaki e Goodfellow participam de um consórcio que propõe desenvolver ferramentas capazes de ler, em poucos minutos e de forma não invasiva, a “impressão digital” bacteriana da vagina. O objetivo é prever risco de aborto, parto prematuro, infertilidade ou câncer cervical e oferecer intervenções individualizadas.
Esse conceito replica avanços obtidos no rastreamento do HPV, hoje teste primário de rotina no Reino Unido para identificar mulheres propensas ao câncer do colo do útero.
Cuidados que preservam o microbioma
Especialistas apontam práticas simples para manter a flora vaginal saudável:
- Evitar duchas íntimas: lavar internamente com água ou produtos de limpeza altera o pH e aumenta VB, parto prematuro e doença inflamatória pélvica.
- Limitar sprays, géis e lenços perfumados: substâncias químicas podem desequilibrar a microbiota.
- Usar preservativos: além de impedir ISTs, o condom previne a introdução do microbioma do sêmen, que interfere na flora vaginal. Estudos mostram maior prevalência de Lactobacillus em usuárias de camisinhas.
- Alimentação equilibrada: deficiência de vitaminas A, C, D, E, β-caroteno, folato e cálcio eleva o risco de VB; consumo exagerado de gordura também. Obesidade foi ligada a menor quantidade de Lactobacillus.
- Hidratação, sono adequado e controle do tabagismo: em análise com 20 voluntárias, 50% das fumantes apresentaram microbioma pobre em Lactobacillus, contra 15% das não fumantes. Outros estudos apontam maior prevalência de VB e parto prematuro em fumantes.
“Comer verduras, dormir bem e beber água são medidas gerais que provavelmente beneficiam a microbiota vaginal”, resume Goodfellow.
Embora uma nova geração de probióticos e exames rápidos prometa revolucionar a saúde reprodutiva, cientistas reforçam que nenhum tratamento deve ser adotado sem orientação médica. Enquanto avanços não chegam à prática clínica, hábitos saudáveis continuam sendo a forma mais acessível de proteger esse ecossistema delicado.
Com informações de BBC