O Sistema Nacional de Análise Balística (Sinab), apontado por peritos como um “banco de DNA” de projéteis, já contribuiu diretamente para 9.066 investigações criminais em todo o país. A ferramenta, que compara marcas deixadas em cápsulas e projéteis disparados, está em operação nacional desde 2023 e tem acelerado a produção de provas para delegados e policiais civis em quase todos os estados.
Como o Sinab identifica conexões entre crimes
O procedimento começa logo após o crime. Equipes de perícia das polícias científicas ou civis coletam armas, projéteis, fragmentos e cápsulas na cena. Parte desse material é então inserida no banco de dados balísticos. Cada arma de fogo deixa impressões microscópicas exclusivas no projétil ao ser disparada, funcionando como uma impressão digital. Quando o perfil balístico chega ao sistema, um software procura automaticamente registros semelhantes já arquivados.
Se uma correspondência é localizada, o programa gera uma “ligação”. Os peritos revisam essas sugestões, examinam as comparações em microscópio e confirmam ou descartam a coincidência. Quando o match é validado, o laudo resultante passa a integrar o inquérito, permitindo ligar um caso ao outro, uma arma a um suspeito ou, ainda, elucidar a trajetória de determinado armamento.
“Com essas ligações, mais de nove mil inquéritos já receberam laudos ou informações que os fizeram avançar”, resume o perito Lehi Sudy, coordenador do comitê gestor do Sinab.
Expansão e estrutura do sistema
O banco de perfis balísticos é alimentado por 40 laboratórios distribuídos pelos 26 estados e o Distrito Federal. Desde o início das operações, em 2022, 102.354 inserções foram registradas, resultando em 6.929 ligações confirmadas entre ocorrências.
Para montar essa rede, o governo federal investiu R$ 124 milhões. A União forneceu os equipamentos de alta precisão, arca com a manutenção – estimada em R$ 300 mil mensais – e firmou convênios de cinco anos com cada unidade da federação. Cabe aos estados disponibilizar peritos, estrutura física e insumos necessários aos exames.
A autorização para criação do banco ocorreu em 2019. A implantação foi gradual a partir de 2022, no governo anterior, até alcançar funcionamento nacional completo em 2023, já na atual gestão.
Relatos de quem opera a tecnologia
Para o perito Rafael Silva, administrador do Sinab no Paraná, o sistema substituiu um trabalho que beirava o “garimpo manual”. “Antes, fazíamos até sete exames diferentes na mesma amostra, comparando com armas distintas e, mesmo assim, sem resultado. Hoje o Sinab vasculha todo o palheiro e mostra onde provavelmente está a agulha”, ilustra.
A perita Telma Penazzi, diretora do Laboratório de Balística do Instituto de Criminalística de São Paulo, descreve o princípio físico que sustenta a ferramenta: “Quando o projétil passa sob pressão dentro do cano, qualquer imperfeição arranha a munição e gera marcas únicas. Essas marcas são capturadas e registradas”. Segundo ela, a possibilidade de rastreio nacional tem causado receio entre criminosos, que sabem da chance de ligação entre crimes distintos.

Imagem: Internet
Impacto prático nas investigações
Na rotina das delegacias, os laudos balísticos gerados espontaneamente muitas vezes oferecem informações inéditas às equipes. “O laboratório encaminha um parecer que associa, por exemplo, um homicídio em uma cidade a um roubo em outra região. Isso incentiva as equipes a trocarem dados e criarem linhas de apuração integradas”, relata Rafael Silva.
Ao favorecer a conexão de ocorrências de diferentes estados, o Sinab também auxilia na tentativa de mapear rotas de armas usadas por grupos criminosos. Ainda de acordo com os peritos, a troca de mensagens entre os 40 laboratórios ocorre praticamente todos os dias, fortalecendo a integração nacional das polícias científicas.
Renovação dos convênios
Os acordos que garantem o funcionamento do Sinab possuem validade de cinco anos. Em julho de 2026, terminam os instrumentos firmados com Goiás, Paraná, Pernambuco e Espírito Santo. O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que pretende renovar todas as parcerias e que as negociações começarão no período adequado.
Em nota, a pasta classificou o projeto como “exitoso” pelos resultados obtidos e reconheceu que há desigualdade regional no uso do sistema. Fatores como infraestrutura local, efetivo especializado, prioridade institucional, qualidade de conexão à internet e dificuldades de implementação influenciam a quantidade de amostras inseridas por cada estado.
Perspectivas
Enquanto ajustes são discutidos, os técnicos enfatizam que o Sinab já modificou a forma como a investigação balística é conduzida. “Revolucionou os exames”, define Rafael Silva. Para Telma Penazzi, ao aproximar peritos de todo o país, o projeto “fez o mundo da balística ficar menor”.
Em meio a esse cenário, o Banco Nacional de Perfis Balísticos segue recebendo novas amostras diariamente, ampliando a base de dados e fortalecendo a capacidade das polícias de ligar armas, projéteis e suspeitos em diferentes pontos do território brasileiro.
Com informações de G1