Uma semana depois de deixar o cargo de diretor de futebol do São Paulo, Carlos Belmonte concedeu, na segunda-feira (1.º), entrevista exclusiva na qual relatou os bastidores de sua saída, apontou diferenças de visão em relação ao presidente Julio Casares e não descartou participar da corrida presidencial marcada para o fim de 2026.
Decisão antecipada pela goleada
Belmonte afirmou que já havia comunicado internamente a intenção de permanecer no Morumbi apenas até o encerramento da temporada 2025. A derrota por 6 a 0 para o Fluminense, na última quinta-feira (27), porém, antecipou o cronograma.
“Eu sairia naturalmente em dezembro. Depois da goleada, entendi que o presidente precisaria de mais tempo para planejar 2026. Embora pareça pouco, ganhar uma semana faz diferença quando o campeonato termina”, declarou.
O ex-dirigente acrescentou que a iniciativa foi exclusivamente sua. “Não fui demitido nem responsabilizado por esse resultado. Todos ganham e perdem juntos. Sai para tirar o foco do presidente e permitir que quem fica trabalhe com tranquilidade.”
Distanciamento gradual do dia a dia
O afastamento de Belmonte do cotidiano do CT da Barra Funda já era visível nas últimas rodadas. Segundo ele, tudo começou após a eliminação diante do Mirassol, quando Casares decidiu colocar o superintendente Márcio Carlomagno em presença fixa no centro de treinamento.
“Respeitei a decisão, mas não concordei. Naquele momento, defini que sairia mais à frente. Continuei indo ao CT para garantir estabilidade ao elenco, porque minha relação com os jogadores sempre foi muito próxima. Uma mudança de hierarquia gera desconfiança e eu quis suavizar esse processo”, contou.
Entre os jogos contra Vasco, Flamengo e Red Bull Bragantino, Belmonte não viajou com a delegação, justificando necessidade de acompanhar a esposa em procedimento cirúrgico. “Depois, considerei desnecessário ter outro diretor em campo se o Márcio já cumpria a função”, complementou.
Divergências, mas sem ruptura pessoal
Apesar da discordância pontual sobre a função de Carlomagno, Belmonte negou ter rompido com Casares ou com qualquer integrante do departamento de futebol. “A transição ocorreu de maneira tranquila. Enquanto estive lá, segui comandando. Tenho gratidão ao Julio. Ele é o presidente e cabe a ele decidir a estrutura.”
Ele também citou os nomes que ficaram responsáveis pela reformulação do elenco para 2026: o executivo Rui Costa, o próprio Carlomagno, o coordenador técnico Muricy Ramalho e o presidente Casares. “São profissionais altamente qualificados. Saio confiante de que darão continuidade ao trabalho.”
Belmonte reconheceu o impacto emocional do revés por 6 a 0, mas pediu reação rápida. “Disse aos jogadores que uma derrota histórica desaparece com duas vitórias seguidas; o que fica para sempre é a conquista da Copa do Brasil”, afirmou, referindo-se ao título obtido pelo clube na mesma temporada.
Futuro político em aberto
Rumores de que sua ausência recente estaria ligada a ambições eleitorais ganharam força nos corredores do Morumbi. Questionado sobre o assunto, Belmonte negou ser candidato neste momento, mas não fechou a porta.
“Política desgasta e o presidente tem razão ao tentar adiar esse debate. Falta um ano para a campanha começar de fato e ainda não há candidaturas definidas. Não me considero candidato. Ao mesmo tempo, reconheço que me encaixo no perfil ideal: experiência de gestão, resultados profissionais e conhecimento da história do São Paulo”, ponderou.
O conselheiro vitalício admitiu que avaliará a possibilidade caso receba apoio de correligionários. “Se meus pares entenderem, ao longo do próximo ano, que meu nome é adequado, vou analisar. Agora, penso em dedicar tempo à família e, como conselheiro, ajudar para que Julio conclua a gestão da melhor forma.”
Planejamento para 2026
Ao justificar a importância de seu desligamento antes da virada do ano, Belmonte ressaltou que a montagem do elenco precisa começar imediatamente após o término do Campeonato Brasileiro. Sem ele, a linha de comando administrativa passa a contar com menos interlocutores.

Imagem: Internet
“Planejar temporada é tarefa que exige conversas diárias sobre orçamento, renovações e contratações. Se permanecesse até dezembro e depois saísse, poderia haver uma lacuna. Deixei o caminho livre para que as decisões sejam tomadas já”, explicou.
Relação com elenco
Belmonte reiterou a proximidade que mantinha com os atletas. Segundo o ex-diretor, a confiança construída ao longo do tempo foi essencial para atravessar momentos delicados, inclusive a sequência de resultados negativos que culminou na goleada no Maracanã.
“Quando o ambiente balança, a primeira coisa é garantir estabilidade. Tinha responsabilidade de blindar jogadores e comissão técnica. Por isso, mesmo discordando da chegada de um superintendente contínuo no CT, permaneci até sentir que o grupo estava confortável”, relatou.
Próximos compromissos do Tricolor
Sem Belmonte, o São Paulo volta a campo nesta quarta-feira (3), às 20h, diante do Internacional, no Morumbi, em jogo válido pela penúltima rodada do Brasileirão. No domingo (7), às 16h, a equipe encerra a participação no campeonato contra o Vitória, em Salvador.
Papel de conselheiro
Enquanto amadurece eventual projeto eleitoral, Belmonte continuará frequentando o clube como conselheiro. Ele pretende participar das discussões internas, mas sem interferir no departamento de futebol. “Vou ajudar no que for possível, sempre respeitando o organograma atual”, garantiu.
Balanço de gestão
Durante a passagem pelo futebol, iniciada em janeiro de 2021, o ex-diretor participou da montagem do elenco que conquistou a Copa do Brasil de 2025, título inédito na história tricolor. Também esteve à frente das negociações que levaram o clube a disputar duas finais estaduais e a alcançar vaga constante em competições continentais.
“Saio satisfeito com o ciclo, apesar de compreender que a derrota para o Fluminense acendeu alertas. Futebol é resultado, mas também processo. Deixo princípios e práticas que, acredito, continuarão sendo úteis”, concluiu.
Com a saída oficializada, a diretoria são-paulina trabalha para definir metas de investimento e reposição de atletas antes da reapresentação em janeiro. O orçamento para 2026 deve ser apresentado ao Conselho Deliberativo nas próximas semanas.
Por ora, a principal novidade é a consolidação de Márcio Carlomagno como figura permanente no CT, apoiado por Rui Costa e Muricy Ramalho. A expectativa é que a tríade apresente, até o fim de dezembro, a lista de jogadores que serão liberados ou que terão contrato renovado.
Enquanto isso, Carlos Belmonte inicia período de dedicação familiar, projeta reflexões pessoais e observa de fora o desempenho tricolor nas duas partidas finais da Série A.
Com informações de ESPN Brasil