Pequenos impactos de meteoritos na superfície lunar, conhecidos como Fenômenos Lunares Transientes (TLPs, na sigla em inglês), prometem virar um espetáculo para observadores terrestres entre os dias 13 e 14 de dezembro. O período coincide com o ponto máximo da chuva de meteoros Geminídeas, tradicionalmente uma das mais intensas do calendário astronômico, e reúne condições favoráveis para quem deseja flagrar os rápidos flashes de luz produzidos na Lua.
Fenômeno diário e visível da Terra
Embora o tema costume ganhar atenção em datas específicas, os TLPs acontecem diariamente. Sem atmosfera densa que impeça a chegada de pequenos corpos rochosos, a Lua sofre impactos constantes de fragmentos espaciais. Quando isso ocorre, a energia liberada faz o solo lunar brilhar por frações de segundo — clarões que telescópios amadores conseguem registrar a mais de 350 mil quilômetros de distância.
“Na Terra, enxergamos o rastro luminoso do meteoro queimando na atmosfera. Como a Lua não tem essa proteção, vemos o brilho diretamente no ponto de impacto”, explicou o astrônomo amador Marcelo Domingues, do Clube de Astronomia de Brasília, durante o programa Olhar Espacial exibido na última sexta-feira (5).
Segundo o pesquisador Lauriston Trindade, membro da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (Bramon) e codescobridor das primeiras chuvas de meteoros reconhecidas no Brasil, objetos a partir de um metro de diâmetro já geram clarões perceptíveis da Terra. “Apenas cerca de 2% da energia é convertida em luz, mas ainda assim é suficiente para ser vista daqui”, afirmou.
Janela de observação curta e Lua parcialmente escura
A temporada da Geminídeas oferece condições incomuns para a observação dos TLPs. De acordo com a Bramon, mais de metade do disco lunar permanecerá imerso na sombra durante a madrugada do pico, reduzindo o ofuscamento causado pela luz refletida. Além disso, a previsão é de uma janela de apenas duas horas na qual a geometria Sol-Terra-Lua favorece a incidência de fragmentos na parte visível do satélite.
“Quando uma porção extensa da Lua está iluminada, mesmo olhando para a região em sombra o brilho do restante do disco atrapalha. Entre 13 e 14 de dezembro teremos uma área escurecida ampla e bem posicionada para registrar os impactos”, detalhou Trindade.
Campanha nacional de registro
Para aproveitar o cenário favorável, a Bramon lançou uma campanha que incentiva astrônomos amadores de todo o país a direcionar câmeras e telescópios para a Lua durante a chuva Geminídeas. A rede recomenda equipamentos com abertura mínima de oito polegadas, câmera sensível a baixa luminosidade e captura de vídeo contínua. As gravações podem ser enviadas para análise da própria organização, que mantém um acervo colaborativo de eventos registrados no céu.
Marcelo Zurita, apresentador do Olhar Espacial e coordenador da iniciativa, reforçou que a participação não se limita a especialistas. “Qualquer pessoa com telescópio motorizado e câmera pode contribuir. Quanto mais imagens coletarmos, melhor entenderemos a taxa de impactos e a distribuição de tamanhos dos meteoroides”, comentou.
Acervo internacional de flashes lunares
Os brasileiros não estão sozinhos na missão de catalogar TLPs. No mês passado, o japonês Daichi Fujii, curador do Museu da Cidade de Hiratsuka, flagrou dois clarões em pouco menos de 48 horas. Ele soma mais de 60 registros desde 2011, formando um dos maiores bancos de dados independentes sobre o tema.
Fujii normalmente emprega câmeras de alta sensibilidade apontadas para a face lunar visível toda noite. Quando detecta um flash, compara o instante do evento com dados de satélites para distinguir possíveis interferências, como reflexos de naves artificiais ou raios cósmicos na atmosfera terrestre. Procedimento semelhante é adotado pela Bramon ao validar contribuições brasileiras.
Possível impacto de asteroide em 2032
Além dos pequenos fragmentos que atingem a Lua todos os dias, existe a remota possibilidade de um impacto mais expressivo nos próximos anos. Estudos citados durante o programa indicam que o asteroide 2024 YR4, ainda em fase de monitoramento, pode colidir com o satélite natural em 2032. Embora as probabilidades sejam consideradas mínimas, a hipótese desperta interesse pela dimensão do corpo rochoso e pela energia que liberaria em caso de choque direto.
Se o encontro ocorrer, o clarão deve superar em muito os TLPs registrados rotineiramente, tornando-se visível mesmo a olho nu. Por ora, a comunidade científica acompanha a órbita do objeto e projeta cenários. Nenhuma implicação direta para a Terra é prevista, já que a colisão ocorreria no solo lunar.
Como observar
Para quem pretende acompanhar os flashes durante a Geminídeas, especialistas recomendam:
- Identificar o horário em que a Lua começa a nascer ou se posiciona mais alta no céu, garantindo campo de visão livre de obstáculos;
- Usar telescópios de média ou grande abertura, capazes de capturar detalhes na superfície;
- Registrar em vídeo com taxa de quadros alta, pois os clarões duram milissegundos;
- Verificar previsões meteorológicas e escolher locais com céu limpo e pouca poluição luminosa.
Mesmo observadores sem equipamentos podem participar indiretamente acompanhando transmissões online realizadas por clubes de astronomia e redes de monitoramento. Várias entidades planejam lives durante a madrugada de 13 para 14 de dezembro, exibindo em tempo real imagens ampliadas da região escura do disco lunar.

Imagem: William Schauff
Importância científica
Observar TLPs não serve apenas de espetáculo. Cada registro oferece dados sobre a frequência de impactos, distribuição de tamanhos de meteoroides e dinâmica de crateras recentes. Ao comparar eventos atuais com imagens de alta resolução da sonda Lunar Reconnaissance Orbiter, pesquisadores determinam a evolução da superfície e calibram modelos sobre riscos a futuras bases lunares.
Ao longo dos últimos anos, a coleta sistemática de flashes ajudou a identificar picos de atividade associados a chuvas de meteoros tradicionais, como Geminídeas e Perseidas. Essas correlações indicam que parte do material que entra na atmosfera terrestre também alcança a órbita lunar, reforçando a origem comum nos detritos de antigos cometas ou asteroides fragmentados.
Ferramentas de inteligência artificial começaram a ser aplicadas na análise automática dos vídeos enviados por amadores. Algoritmos filtram ruídos, classificam intensidade do brilho e estimam a energia envolvida em cada impacto. Os resultados complementam instrumentos de solo e missões espaciais que monitoram o ambiente próximo da Lua.
Agenda do pico da Geminídeas
De acordo com dados consolidados pela Organização Internacional de Meteoros (IMO), o ápice da chuva deve ocorrer entre 22h do dia 13 e 2h da madrugada de 14 de dezembro, no horário de Brasília. A taxa horária zenital prevista ultrapassa 120 meteoros, número capaz de ampliar a quantidade de fragmentos que também atingem o satélite natural.
Mesmo após o pico, a chuva permanece ativa até o dia 17, mas com intensidade decrescente. Quem perder a janela principal ainda terá oportunidade de observar TLPs, embora a combinação de menos meteoros e porção iluminada crescente da Lua reduza a probabilidade de registros.
Preparo simples amplia chances
Domingues ressalta que paciência e planejamento fazem diferença. “Os flashes duram menos de um segundo. Sem registro em vídeo, pode ser difícil confirmar se você realmente viu um TLP ou um reflexo do olho”, alertou. Luzes artificiais devem ser minimizadas, e ajustes como ganho da câmera e tempo de exposição precisam ser testados antes da madrugada do evento.
Quem dispuser de montagens motorizadas deve sincronizar a movimentação do telescópio com a rotação terrestre, mantendo a região escura da Lua constantemente no quadro. Programas gratuitos ajudam a calcular coordenadas, enquanto softwares de captura se encarregam de armazenar horas de gravação para revisão posterior.
Participação cidadã
O esforço conjunto de astrônomos amadores e profissionais já resultou na descoberta de crateras recentes confirmadas por sondas orbitais. A Bramon disponibiliza guias e tutoriais em seu site para padronizar os relatórios enviados pelos voluntários. Cada vídeo submetido passa por verificação para evitar confusão com ocorrências terrestres, como descargas elétricas ou satélites refletindo a luz solar.
Trindade concluiu que campanhas desse tipo ajudam a popularizar a ciência e ampliar o banco de dados global sobre impactos lunares. “Quanto mais olhos observando, maior a chance de ampliar nosso conhecimento sobre o ambiente ao redor da Terra e da Lua”, afirmou, sem antecipar conclusões, mas sugerindo que o pico da Geminídeas deve incrementar significativamente a quantidade de flashes detectados.
Os amantes da astronomia, portanto, têm data marcada para mirar telescópios e câmeras no satélite natural. Com céu limpo, equipamentos ajustados e atenção redobrada, a madrugada entre 13 e 14 de dezembro promete oferecer — em frações de segundo — um vislumbre do dinamismo que continua a moldar a superfície lunar.
Com informações de Olhar Digital