ANCHORAGE (Alasca) – A Divisão de Segurança e Saúde Ocupacional do Departamento do Trabalho do Alasca abriu em setembro uma nova investigação para averiguar possíveis problemas na qualidade do ar do Alaska Regional Hospital, em Anchorage. O inquérito foi motivado por um segundo conjunto de denúncias apresentadas por profissionais de enfermagem que relatam, desde abril, sintomas como dores de cabeça, tontura, irritação na pele e dificuldades respiratórias.
Histórico de reclamações
De acordo com relatos colhidos pelo próprio setor de fiscalização e pela união sindical Laborers Local 341, mais de 30 enfermeiros afirmam ter sofrido episódios recorrentes de mal-estar enquanto trabalhavam, principalmente no segundo andar da unidade. Entre os casos descritos estão desmaio sobre paciente, dores no peito, feridas na boca, hemorragias nasais e perda temporária do olfato e do paladar. A enfermeira Amy Brown, que atua no hospital, contou que os sintomas costumam intensificar-se após jornadas consecutivas e que, por temer consequências de longo prazo, considera antecipar sua saída do emprego.
Quatro outros profissionais de enfermagem deram depoimentos semelhantes, mas pediram anonimato por receio de retaliação. Segundo eles, a frequência das ocorrências faz com que alguns colaboradores passem a utilizar máscaras N95 ou até respiradores purificadores de ar (PAPR) durante os plantões.
Primeira apuração não encontrou fonte de contaminação
O mesmo órgão estadual já examinara o caso entre maio e julho. Na ocasião, concluiu não haver violações objetivas de segurança ou fonte identificável de contaminação. Documentos obtidos por meio de solicitação de registros públicos mostram, entretanto, que a fiscalização apontou demora inicial da administração hospitalar em responder às queixas dos empregados. Houve intervalo de cerca de uma semana entre os relatos dos trabalhadores e as primeiras ações da direção, assinala o relatório.
Ainda segundo o parecer de julho, o hospital dispunha de purificadores de ar que permaneceram desligados até 3 de maio. A chefia de fiscalização, embora tenha entendido que a instituição não cumpriu plenamente, no primeiro momento, a obrigação legal de proteger seus funcionários, optou por não aplicar multa e recomendou apenas medidas corretivas.
Sistema de esterilização de resíduos sob suspeita
A maior parte dos enfermeiros atribui o problema a vapores inodoros possivelmente associados ao San-I-Pak, equipamento usado para esterilizar resíduos médicos no primeiro pavimento, ou ao sistema de ventilação do local onde essa máquina opera. O San-I-Pak utiliza vapor de alta pressão e calor para tratar itens como agulhas usadas e materiais cirúrgicos antes de seu descarte.
A HCA Healthcare, conglomerado sediado no Tennessee que administra o Alaska Regional, nega relação entre o dispositivo e as reclamações. Em nota assinada pela porta-voz Brittany Glas, a companhia afirma que “dezenas de testes ambientais” realizados desde maio não detectaram qualquer agente perigoso e garantiu que tanto o San-I-Pak quanto a ventilação “funcionam dentro da normalidade”.
Danos no duto de exaustão e reparo
Uma denúncia enviada em maio ao escritório regional da Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos Estados Unidos (OSHA) mencionava suposta fissura em uma das câmaras do San-I-Pak. Em carta de resposta, a direção do hospital explicou que não havia rachadura no equipamento, mas sim um rasgo de 60 cm por 1,3 cm no duto que leva o ar processado até a doca de carga. O dano teria sido provocado por impacto de uma caçamba em 15 de maio e corrigido cinco dias depois.
Testes e medidas adotadas pelo hospital
Desde o início das queixas, a administração diz ter acionado o corpo de bombeiros de Anchorage, especialistas em saúde ocupacional e diversas consultorias externas. Um levantamento realizado em 1.º de outubro, durante a madrugada, analisou 76 compostos orgânicos voláteis e não apontou concentrações acima dos níveis de preocupação. Testes anteriores também não encontraram anomalias, segundo laudo entregue aos funcionários.
Em “ato de cautela”, ainda conforme nota da HCA, o hospital promoveu a limpeza do sistema de climatização, substituiu filtros, instalou novos exaustores e passou a “atualizar constantemente” o quadro de enfermagem sobre resultados de vistorias. A empresa ressalta que todos os levantamentos foram conduzidos com ciência da Divisão de Segurança e Saúde Ocupacional do estado.

Imagem: Alex Darban Updated
Apesar dos laudos negativos, a unidade decidiu transferir o funcionamento do San-I-Pak para o período noturno. O sindicato afirma que havia solicitado a paralisação temporária do equipamento e até a terceirização do tratamento de resíduos por 30 dias, para verificar se os sintomas cessariam, mas o pedido não foi atendido. Segundo comunicou a direção à entidade laboral, a inspeção de manutenção concluiu que o aparelho “opera adequadamente”.
Sintomas concentrados em setores específicos
Trabalhadores relatam que os primeiros quadros ocorreram no Pre-Operation Discharge Unit (PDU). Meses depois, as queixas passaram a incluir o Post-Anesthesia Care Unit (PACU), ambos localizados no segundo piso, onde enfermeiros cumprem turnos de 12 horas. Médicos e pacientes também teriam sentido incômodos, porém em menor número, possivelmente porque permanecem menos tempo nessas áreas, dizem os profissionais.
Mais de 70 registros formais de doença ocupacional foram entregues à chefia ao longo do ano, segundo compilação cedida pelos enfermeiros ao jornal. Em alguns relatórios, trabalhadores descrevem uso de PAPR e, ainda assim, sensação de náusea, formigamento nos lábios e garganta áspera. Há apontamentos de que funcionários se sentem desencorajados a explicar aos pacientes a razão do uso de equipamentos de proteção individual.
Posição do sindicato
O Laborers Local 341 informa ter recebido manifestações de pelo menos 16 filiados com sintomas semelhantes. A organização diz tentar “solução colaborativa” com a administração. “Nosso objetivo é que as preocupações de saúde sejam integralmente ouvidas e resolvidas”, declarou a representante de enfermagem Joleen Corlis, em nota.
Próximos passos da investigação
A nova apuração estadual, iniciado em setembro, permanece aberta e cobre praticamente os mesmos pontos do processo arquivado em julho. Adam Weinert, assistente especial do comissário de Trabalho e Desenvolvimento da Força de Trabalho do Alasca, confirmou que o caso ainda não tem data para conclusão. Até lá, a fiscalização continua recolhendo depoimentos, analisando laudos laboratoriais e verificando as medidas de mitigação adotadas pelo hospital.
Enquanto isso, parte da equipe de enfermagem avalia pedir transferência ou desligamento. “Sinto que cada dia de trabalho piora meu estado de saúde”, afirmou Amy Brown. Para ela e colegas, a prioridade é apenas uma: encontrar a origem do problema e restabelecer condições seguras de trabalho.
Com informações de Anchorage Daily News