Roberto Carlos, um dos maiores laterais da história do futebol, afirmou que existe apenas uma partida em toda a sua trajetória que gostaria de apagar do currículo: o clássico entre Barcelona e Real Madrid no Camp Nou, em 2000, marcado pelo reencontro de Luís Figo com a torcida catalã. O brasileiro relembrou o episódio durante participação no The Obi One Podcast, apresentado pelo ex-volante nigeriano John Obi Mikel.
‘Parecia uma guerra, não futebol’
Questionado sobre momentos marcantes da carreira, Roberto Carlos foi direto. “Não gosto de recordar o episódio do Camp Nou. Parecia uma guerra, não futebol. Foi a partida que queria que terminasse o mais rápido possível. De todos os jogos que disputei, foi o único que gostaria de não ter jogado. As pessoas foram muito agressivas”, declarou.
Naquela noite, o clima no estádio era tenso desde o aquecimento. Figo, contratado pelo Real Madrid meses antes em uma transferência histórica que o tirou do Barcelona, passou a ser tratado como traidor pela torcida blaugrana. O ambiente rapidamente extrapolou as provocações habituais de um El Clásico e virou um cenário de hostilidade permanente.
Contratação de Figo trouxe alívio técnico, diz brasileiro
Apesar da atmosfera hostil, Roberto Carlos admitiu que ter o português como companheiro foi um alívio. “Dou os parabéns a Florentino Pérez pela contratação de Figo. Quando jogava contra o Barcelona, eu não conseguia dormir, porque era muito difícil marcá-lo. Tê-lo do nosso lado facilitou muito”, explicou o ex-lateral.
Figo chegou ao Real Madrid em julho de 2000 como o primeiro grande nome da chamada era ‘galáctica’ de Florentino Pérez. A transferência, avaliada em 62 milhões de euros — valor recorde na época —, inflamou a rivalidade entre os dois clubes e elevou a expectativa em torno do primeiro confronto no Camp Nou após a negociação.
O jogo que entrou para a história
Em 21 de outubro de 2000, Barcelona e Real Madrid se enfrentaram pela nona rodada do Campeonato Espanhol. O Barça venceu por 2 a 0, mas o resultado acabou ofuscado pelo comportamento das arquibancadas. Garrafas, moedas e até uma cabeça de porco foram arremessadas em direção a Figo sempre que o português se aproximava para cobrar escanteios ou laterais. Em diferentes momentos, o árbitro foi obrigado a interromper a partida para que o gramado fosse limpo.
A tensão tomou conta também dos jogadores merengues. Segundo Roberto Carlos, até atletas habituados a partidas decisivas demonstraram nervosismo incomum. Com o barulho ensurdecedor e a chuva de objetos, a missão de manter a concentração era quase impossível. “Nunca vi algo parecido. Todo mundo estava preocupado com a própria segurança e com a do Figo. Queríamos que o jogo terminasse logo”, recordou.
Dentro de campo, Figo teve atuação discreta, limitada pelo clima de hostilidade. O brasileiro, do lado esquerdo da defesa madrilenha, percebeu rapidamente que o foco não seria apenas o futebol. “Ficou claro que aquela noite seria diferente. Nosso objetivo passou a ser sair do estádio sem que nada pior acontecesse”, afirmou.
A rivalidade em nível quase irracional
O episódio reforçou a ideia de que a rivalidade Barça-Real havia atingido patamar inédito. Para Roberto Carlos, o clássico daquele dia transformou-se em símbolo de um período em que futebol e emoção quase se confundiram. Jogadores experientes, acostumados a finais de Copa do Mundo e Liga dos Campeões, sentiram o peso psicológico de dividir o campo com Figo no Camp Nou.
“A gente sempre espera pressão em um El Clásico, mas aquela ocasião superou qualquer limite. Não era só vaia, era algo pessoal contra ele. E isso afetou todos nós”, relatou o ex-lateral. Mesmo depois do apito final, o clima permaneceu tenso nos corredores internos do estádio. A delegação do Real Madrid deixou o local sob forte proteção policial.
Impacto duradouro para Figo e companheiros
A partida de 2000 marcou a relação de Figo com o Barcelona para sempre. O português, que havia sido ídolo na Catalunha, passou a ser lembrado como o maior traidor da história do clube. Nos anos seguintes, sempre que voltava ao Camp Nou, encontrava ambiente hostil parecido, embora nenhuma outra vez tenha alcançado o nível daquele primeiro reencontro.

Imagem: Imago
Para Roberto Carlos, a noite serviu como alerta sobre os extremos que o futebol pode alcançar. Ele disputou dezenas de clássicos espanhóis, mas nunca mais vivenciou atmosfera tão carregada. “Foi algo que não quero repetir. Felizmente, depois daquele dia, nenhum jogo chegou perto daquele grau de agressividade”, comentou.
Carreira marcada por grandes conquistas
Com 845 partidas oficiais ao longo da carreira, segundo registros dos clubes por onde passou, Roberto Carlos participou de cinco Copas do Mundo, conquistou três Ligas dos Campeões, quatro Campeonatos Espanhóis e dois Campeonatos Brasileiros, entre outros títulos. Ainda assim, escolhe como pior lembrança uma noite em que não houve derrota pessoal, mas sim um ambiente que transformou o futebol em espetáculo de risco.
Ao recordar os 11 anos de trajetória no Real Madrid, entre 1996 e 2007, o ex-lateral costuma citar vitórias emblemáticas, como a final da Champions League de 2002 contra o Bayer Leverkusen, ou o gol de falta contra o Tenerife, em 1998. Entretanto, o duelo em Barcelona, recheado de insultos e tensão, sobressai como o momento que gostaria de não ter vivido.
Testemunho de quem estava em campo
Obi Mikel, apresentador do podcast, ouviu o relato com atenção e destacou que poucas vezes um jogador admite ter preferido não disputar determinado jogo. Roberto Carlos respondeu que sua prioridade naquele 21 de outubro foi apoiar Figo e garantir que a equipe saísse ilesa. “Nós nos unimos para protegê-lo, porque sabíamos que ele estava em perigo. Esse foi o nosso espírito naquele dia”, contou.
Apesar do comportamento agressivo da torcida, os dois jogadores se mostraram conscientes de que o episódio virou referência quando se discute a rivalidade entre os gigantes espanhóis. Para Roberto Carlos, o clássico serve de lembrança de que o futebol deve ser paixão, mas não violência. “Apenas quem estava lá entende o que significou. Nunca mais esqueci aquela noite”, concluiu.
A entrevista completa com o ex-lateral foi publicada pelo The Obi One Podcast e reforça o peso histórico do reencontro de Figo com o Camp Nou. Até hoje, o confronto de 2000 ilustra reportagens e documentários sobre a intensidade de Barcelona x Real Madrid, sendo citado como exemplo de tensão que ultrapassa o limite esportivo.
Roberto Carlos encerrou sua participação no programa desejando que episódios semelhantes fiquem no passado, mas reconheceu que o clássico continuará carregado de emoções. “Faz parte do futebol, mas espero que jamais volte a atingir aquele nível”, finalizou.
Com informações de Trivela