Um dia depois de ser goleado por 6 a 0 pelo Fluminense, no Maracanã, o São Paulo precisou administrar uma crise que extrapolou o campo. O desabafo do volante Luiz Gustavo, realizado ainda nos corredores do estádio na noite de quinta-feira, 27 de novembro de 2025, foi recebido com incômodo pela diretoria tricolor, que considerou o momento inadequado para uma manifestação pública tão contundente. Mesmo assim, integrantes da cúpula reconhecem que o experiente meio-campista tocou em pontos sensíveis e verdadeiros sobre a realidade do clube.
Reação nos bastidores
De acordo com relatos colhidos junto a dirigentes, o teor das declarações não foi o principal motivo de irritação, mas sim a escolha de expor a insatisfação pouco depois da maior derrota do São Paulo na temporada. Alguns cartolas entendem que a entrevista deu munição à revolta da torcida e ampliou a repercussão negativa do resultado. Outros, porém, admitem que Luiz Gustavo expressou a insegurança que há tempos ronda o elenco, sobretudo pela falta de clareza em relação a 2026.
A entrevista repercutiu internamente antes mesmo de a delegação deixar o Rio de Janeiro. Já na manhã desta sexta-feira, 28 de novembro, atletas, dirigentes e comissão técnica se reuniram no Centro de Treinamento da Barra Funda para um ajuste de discurso e para discutir medidas que impeçam novo abalo emocional nas rodadas finais do Campeonato Brasileiro.
Incerteza sobre saídas e renovações
O estopim do desconforto, segundo pessoas presentes na reapresentação, é a sensação de que parte do elenco está na berlinda. Circulam desde o início de novembro rumores sobre uma lista de dispensas e sobre a não prorrogação do vínculo de jogadores que terminam contrato em 31 de dezembro. A indefinição, somada à sequência de resultados negativos, tem sido apontada pela própria comissão técnica como um componente importante na queda de rendimento.
Há ainda pendências salariais. Dirigentes confirmam atrasos em direitos de imagem e premiações, embora não detalhem valores. O atraso reforça o discurso de Luiz Gustavo, que citou publicamente a necessidade de “cumprir compromissos” para exigir desempenho. O volante não foi repreendido de forma oficial, mas ouviu internamente que o clube preferia tratar o assunto sem exposição.
Planejamento enxuto para 2026
Em paralelo à crise esportiva, o São Paulo atravessa séria dificuldade financeira. Fontes da diretoria admitem que contratações de grande impacto estão descartadas para 2026. A ideia é buscar reforços pontuais e com custo controlado, priorizando posições específicas indicadas pelo técnico e pelo departamento de scout. Em outras palavras, o elenco não deve sofrer revolução, mas sim retoques considerados indispensáveis.
A necessidade de contenção de gastos contrasta com o histórico recente de contratações de peso, mas se explica pelo orçamento apertado. Parte da receita prevista para 2025 não se concretizou, e dívidas herdadas de gestões anteriores seguem pressionando o caixa. O reflexo já é sentido no cotidiano do CT, onde despesas vêm sendo revistas.
Crise política entre Casares e Belmonte
As dificuldades financeiras se somam a uma disputa interna. O presidente Julio Casares e o diretor de futebol Carlos Belmonte mantêm relação descrita como “guerra fria” por funcionários. Segundo relatos, os dois quase não conversam nos corredores do Morumbis nem na Barra Funda, e decisões estratégicas foram centralizadas em núcleos separados, o que atrapalha o fluxo de informação.
Esse distanciamento se tornou público em outubro, quando divergências sobre a condução do departamento de futebol vieram à tona. Desde então, interlocutores dos dois dirigentes admitem que o clima é de desconfiança. Nos escalões inferiores, profissionais relatam dificuldade para obter aval em questões simples, já que não há consenso sobre quem responde oficialmente por determinadas áreas.
Choque com a torcida e mudança de mando
O descontentamento não se restringe ao ambiente interno. Após protestos recentes, a diretoria resolveu transferir o duelo contra o Internacional, dia 3 de dezembro, para a Vila Belmiro. Publicamente, o clube justificou a mudança alegando que o gramado do Morumbis ficou comprometido pela sequência de shows. Internamente, porém, a avaliação é de que a decisão também serve para evitar um protesto maciço de torcedores em São Paulo.
Setores da torcida organizada vinham planejando manifestações contra Casares e contra a diretoria de futebol. A goleada sofrida no Maracanã reforçou a mobilização e aumentou o temor de um ambiente hostil dentro e fora do estádio. Dirigentes consideraram a possibilidade de atuar com portões fechados, mas julgaram que deslocar a partida para a Baixada Santista seria menos traumático.
Luta por vaga na Libertadores
Mesmo sob forte pressão, o São Paulo ainda disputa lugar na próxima edição da CONMEBOL Libertadores. A derrota para o Fluminense complicou o cenário, mas as chances seguem vivas. Para seguir na briga, o time precisará vencer o Internacional, às 20h (de Brasília), e depois o Vitória, em Salvador, no dia 7 de dezembro, às 16h. O técnico tem pela frente o desafio de resgatar a confiança do elenco em apenas quatro dias de trabalho antes do compromisso na Vila Belmiro.
Nos bastidores, a avaliação é que garantir a vaga continental pode aliviar o ambiente e fortalecer a diretoria em meio às disputas internas. Por outro lado, a não classificação aumentaria a pressão por mudanças já na virada do ano, inclusive sobre o comando técnico.

Imagem: Internet
Reunião na Barra Funda define próximos passos
No encontro desta sexta, dirigentes reforçaram ao elenco que não existe lista de dispensa oficial. Foi informado apenas que cada caso contratual será analisado individualmente, levando em conta rendimento, custos e planejamento financeiro. Também foram apresentados detalhes sobre o cronograma de pagamentos atrasados, com promessa de quitar a maior parte até o fim de dezembro.
O presidente Casares não compareceu ao treino, mas enviou mensagem ao grupo reafirmando confiança no plantel e pedindo “mobilização total” nas duas rodadas restantes. Carlos Belmonte esteve presencialmente e conversou com Luiz Gustavo em particular, numa tentativa de encerrar a polêmica. Segundo relatos, o volante reiterou que não quis afrontar a diretoria, mas apenas defender colegas e funcionários.
Papel da comissão técnica
A comissão técnica procura blindar jogadores do ambiente político. Em conversa com a diretoria, o treinador solicitou que qualquer decisão sobre cortes ou renovações seja comunicada somente após o término do Brasileiro, para evitar novos abalos psicológicos. O pedido foi aceito em princípio, mas depende da evolução das negociações internas.
Para os dois jogos finais, a tendência é que o time mantenha base titular, apesar da goleada no Maracanã. A possibilidade de poupar peças foi descartada. A comissão avalia que mexer na estrutura agora poderia sinalizar desistência da Libertadores e comprometer ainda mais o clima.
Calendário e próximos compromissos
Confira as últimas partidas do São Paulo na temporada:
Internacional (casa) – 3/12, às 20h, Vila Belmiro
Vitória (fora) – 7/12, às 16h, Estádio Manoel Barradas
Além da disputa por vaga no torneio continental, os resultados definirão premiação de posição e influenciarão diretamente o orçamento de 2026. Cada colocação acima na tabela representa receita extra, argumento usado pela diretoria para exigir performance nas rodadas derradeiras.
Perspectiva imediata
Até a partida contra o Internacional, o clube pretende manter rotina de treinos fechados à imprensa e ao público. A estratégia visa reduzir eventuais protestos nas dependências do CT da Barra Funda. Após o jogo em Santos, uma nova reunião de avaliação está programada para alinhar as medidas que serão anunciadas assim que a temporada terminar.
Entre jogadores, a palavra de ordem é “reagir”. Mesmo contestados, os atletas enxergam a Libertadores como chance de encerrar o ano com saldo esportivo positivo e de reduzir a pressão sobre renovações. Dentro da diretoria, porém, prevalece o entendimento de que a reconstrução financeira e a pacificação política serão maiores desafios em 2026.
Com informações de ESPN Brasil