O São Paulo recebeu nesta quarta-feira (3) uma notificação da FIFA impondo um transfer ban, suspensão que impede o clube de registrar novos atletas. A medida foi aplicada porque o Tricolor não quitou uma dívida de aproximadamente R$ 5,3 milhões com o empresário do atacante Jonathan Calleri, o argentino Adrián Ruocco.
A pendência financeira se arrasta desde 2021, ano em que Calleri retornou ao Morumbi. De acordo com o agente, o valor se refere à intermediação da operação que trouxe o centroavante de volta ao clube paulista. Ruocco alega não ter recebido nenhuma parcela desde então.
Prazo de até um mês para regularizar
Segundo a comunicação enviada pela entidade máxima do futebol, o São Paulo dispõe de até 30 dias para quitar a soma ou chegar a um acordo formal com o empresário. Caso contrário, a punição permanecerá em vigor durante a próxima janela de transferências, impedindo contratações nacionais e internacionais até que a situação seja resolvida.
Fontes ligadas às negociações indicam que as partes trabalham para formalizar um acerto ainda nesta semana. Entretanto, dirigentes tricolores admitiram ao portal UOL que há divergências sobre os valores cobrados, motivo pelo qual o débito não foi liquidado até o momento.
Segundo bloqueio em 2024
Esta é a segunda vez no ano que o clube sofre um transfer ban. Em janeiro, o Cerro Porteño, do Paraguai, acionou a FIFA para cobrar atrasados da compra do volante Damián Bobadilla. O São Paulo quitou a obrigação e a punição anterior foi revogada.
Com o novo veto, o departamento de futebol fica impedido de inscrever reforços até que haja comprovante de pagamento à parte credora. A restrição atinge todas as categorias, profissionais e de base.
Contexto financeiro e político
Além das sanções internacionais, o clube enfrenta forte pressão interna. A gestão do presidente Júlio Casares vem sendo alvo de críticas de torcedores nas arquibancadas e nas redes sociais, principalmente após a sequência de resultados irregulares na temporada e o acúmulo de problemas extracampo.
No departamento médico, por exemplo, mais de dez jogadores estão em tratamento, prejudicando o rendimento da equipe. Agora, a impossibilidade de reforçar o elenco amplia o clima de tensão no Morumbi.
Entenda o caso Calleri
Jonathan Calleri voltou ao São Paulo em agosto de 2021, inicialmente por empréstimo junto ao Deportivo Maldonado (URU), com obrigação de compra fixada para o ano seguinte. A intermediação foi conduzida por Adrián Ruocco, representante do atleta. O centroavante, ídolo da torcida, já havia atuado pelo clube em 2016.
Após cumprir metas estabelecidas no contrato, o São Paulo exerceu a cláusula de compra e assinou vínculo definitivo com Calleri. No entanto, segundo Ruocco, o pagamento pelos serviços de intermediação nunca foi efetivado, originando a ação na FIFA.
Possíveis impactos esportivos
Se o bloqueio permanecer até a abertura da janela do meio do ano, o técnico Thiago Carpini terá de trabalhar apenas com as peças já disponíveis. A diretoria planejava buscar reforços pontuais para a sequência do Campeonato Brasileiro e da Conmebol Libertadores, mas ficará impedida de registrá-los.
Apesar do veto, atletas que já pertencem ao clube podem ser inscritos normalmente em competições nacionais e internacionais, desde que tenham contrato vigente. Saídas de jogadores também não sofrem restrições.
Posicionamento oficial
Procurado, o São Paulo confirmou a existência do débito e da notificação, mas reforçou que tenta um acordo direto com o empresário. O clube declarou que “houve discordância nos valores apresentados”, sem detalhar números ou prazos.
Adrián Ruocco, por sua vez, sustenta que o montante de R$ 5,3 milhões é resultado de comissão previamente ajustada e tem insistido na quitação integral. Caso não haja conciliação, o agente pode pedir à FIFA a manutenção do bloqueio por tempo indeterminado.

Imagem: Fábio Malvezzi
Procedimento da FIFA
A entidade costuma conceder 30 dias para que o devedor demonstre o pagamento ou apresente acordo assinado. Se, após esse período, a pendência continuar, o transfer ban é automaticamente prorrogado e pode ser ampliado para mais de uma janela de transferências. Somente a comprovação do depósito libera o clube para inscrever atletas novamente.
Em situações extremas, a FIFA pode aplicar punições adicionais, como dedução de pontos ou rebaixamento administrativo em ligas nacionais. Contudo, essas sanções mais severas costumam ocorrer apenas quando há reincidência prolongada ou descumprimento reiterado de decisões.
Histórico recente de dívidas
O passivo com empresários e clubes estrangeiros não é novo no Morumbi. Além das pendências com Cerro Porteño e com Ruocco, o São Paulo negociou nos últimos anos acordos de parcelamento com outros credores, entre eles o Orlando City (EUA) e o Atlético Nacional (COL), resultantes de contratações anteriores.
A diretoria argumenta que a pandemia de COVID-19 reduziu drasticamente as receitas e impactou o fluxo de caixa. Desde então, a gestão afirma buscar readequação financeira sem comprometer a competitividade do elenco principal.
Próximos passos
Nas próximas semanas, o clube deve intensificar conversas com representantes de Calleri para evitar prolongamento da punição. Internamente, o departamento jurídico trabalha na elaboração de um termo de confissão de dívida que satisfaça as exigências da FIFA e do agente.
Paralelamente, o São Paulo estuda alternativas para gerar receita de curto prazo, como antecipação de parcelas de direitos de transmissão e negociação de jogadores da base. A meta é reunir recursos suficientes antes do encerramento do prazo de 30 dias.
Reação da torcida
A notícia do bloqueio repercutiu rapidamente entre os torcedores, que já vinham manifestando insatisfação com os resultados no Estadual e com a eliminação precoce em competições de base. Em redes sociais, grupos organizados cobraram transparência sobre o planejamento financeiro e reforçaram críticas à atual gestão.
Ainda sem contratações confirmadas para o restante da temporada, o Tricolor terá de se concentrar na recuperação de atletas lesionados para minimizar os efeitos do elenco curto, caso não consiga resolver a dívida no prazo determinado.
Até o fechamento desta reportagem, não havia registro de audiência marcada entre as partes na Câmara de Resolução de Disputas da FIFA, mas o processo segue aberto e pode avançar caso o acordo não seja sacramentado.
Com aproximadamente R$ 5,3 milhões em aberto e sob risco de estender o transfer ban, o São Paulo corre contra o tempo para evitar novas restrições desportivas e preservar a possibilidade de reforçar o elenco na próxima janela.
Com informações de Esportes.com.br