A derrota por 6 a 0 para o Fluminense, na quinta-feira (27), no Maracanã, não ficou restrita ao campo. Menos de 24 horas depois do resultado histórico, o São Paulo anunciou as saídas do diretor de futebol Carlos Belmonte Sobrinho e de dois integrantes de sua equipe, Nelson Marques Ferreira e Fernando Bracalle Ambrogi. A decisão, oficializada na sexta-feira (28), acelerou uma ruptura que vinha sendo desenhada nos bastidores há meses.
Demissões imediatas
O comunicado divulgado pelo clube tratou os desligamentos como parte de um “processo de profissionalização”. Contudo, dirigentes ouvidos nos bastidores apontam que a goleada apenas antecipou mudanças já planejadas para ocorrer após o término do Campeonato Brasileiro. O próprio presidente Julio Casares, em entrevista coletiva no CT da Barra Funda, confirmou que a reformulação era esperada para dezembro, mas foi trazida para agora diante da pressão interna e externa.
Belmonte estava à frente do departamento de futebol desde o início da gestão Casares, em 2021. Nelson Marques exercia função administrativa no setor e Fernando Ambrogi cuidava da área jurídica. Os três eram considerados o “núcleo duro” de Belmonte dentro do CT.
Nova estrutura no futebol
Com a alteração, o comando do futebol passa a ser exercido pelo executivo Rui Costa, que seguirá atuando ao lado do coordenador técnico Muricy Ramalho. Outra figura que ganha protagonismo é o superintendente Marcio Carlomagno, apresentado por Casares como “CEO” do clube. Ele se envolverá diretamente na rotina diária do elenco profissional, algo incomum para a função.
“As mudanças eram inevitáveis. A chegada do Márcio alinha o futebol ao processo de profissionalização iniciado em outras áreas. Rui Costa terá a condução técnica, e o Muricy, o respaldo de sempre”, afirmou o presidente.
Bastidores políticos
A presença crescente de Carlomagno no CT não é novidade. Desde o fim de outubro, o dirigente, responsável por reestruturar as finanças do clube, já circulava nos corredores da Barra Funda, afastando Belmonte das decisões esportivas. Nos corredores do MorumBIS, a leitura é de que Casares aproveitou o momento para tirar de cena um potencial adversário nas eleições de 2026 e, ao mesmo tempo, fortalecer o nome de Carlomagno como possível sucessor.
Belmonte foi visto nos bastidores de apenas um jogo nas últimas semanas — a derrota por 3 a 1 para o Corinthians, em Itaquera —, indício do distanciamento em relação ao núcleo do poder.
Desabafo de Luiz Gustavo repercute
Além da dança das cadeiras na diretoria, a sexta-feira foi marcada por uma conversa franca entre Rui Costa e o volante Luiz Gustavo. Na saída do gramado do Maracanã, o jogador fez um duro desabafo: “Cheguei há dois anos e vejo gente convivendo com isso há mais tempo. Está na hora de colocar os pingos nos ‘is’. O clube é gigantesco, maior do que qualquer pessoa, mas é preciso assumir responsabilidades de cima para baixo”.
A fala do atleta soou como crítica direta à diretoria e foi considerada “inoportuna” por parte da cúpula. Internamente, porém, alguns conselheiros avaliam que o discurso apenas escancarou uma crise já conhecida.
Pressão sobre Casares
No mesmo dia, um grupo de 41 conselheiros de oposição protocolou requerimento pedindo a renúncia imediata de Julio Casares, alegando “gestão temerária”. Embora o movimento chame atenção, a situação mantém ampla maioria no Conselho Deliberativo, o que torna improvável qualquer consequência prática. “É um processo político, pelo qual outros presidentes já passaram. Tenho a coalizão unida e vou trabalhar para entregar um 2026 competitivo”, respondeu Casares.
Divergências anteriores
A relação entre o presidente e o agora ex-diretor de futebol vinha se deteriorando desde o início do semestre. Em setembro, uma mensagem enviada por engano pelo diretor de comunicação José Eduardo Martins a um grupo de WhatsApp expôs comentários pejorativos sobre Belmonte. O episódio aumentou a tensão e deu início a um processo de isolamento do dirigente dentro do clube.

Imagem: Internet
Outro ponto de atrito foi o projeto para criação de um fundo de investimento destinado às categorias de base. O plano prevê captar R$ 250 milhões, sendo R$ 200 milhões aplicados em Cotia e R$ 50 milhões usados para diminuir dívidas. Em contrapartida, investidores passariam a deter 30% do lucro nas vendas de atletas formados no centro de formação. Belmonte se posicionou contra o modelo por entender que o clube abriria mão de parte considerável de um recurso estratégico. Mesmo assim, a proposta já foi aprovada pelo Conselho de Administração e aguarda análise final do Conselho Deliberativo.
Impacto no planejamento
Casares admitiu na entrevista que o clube “fracassou” na temporada 2025, na qual ficou fora da briga por títulos expressivos e sofreu a eliminação precoce na Copa Continental. Para 2026, a meta anunciada é “reavaliar processos” e dar maior autonomia ao departamento de futebol, agora sem a influência de Belmonte.
Ainda não está definido se haverá novas contratações para reforçar a administração do elenco. No entanto, a presença de Carlomagno no CT sinaliza que fluxos e decisões financeiras passarão por seu crivo antes de qualquer liberação de verba.
Reação da torcida
A torcida organizada, que na madrugada de sexta-feira protestou em frente ao aeroporto de Congonhas na chegada da delegação, aguarda os próximos movimentos do clube. Nas redes sociais, o tom é majoritariamente de desconfiança em relação à nova estrutura, mas também há cobranças por um elenco mais competitivo.
Perspectivas para 2026
Rui Costa e Muricy Ramalho terão a missão de iniciar, nas próximas semanas, o planejamento esportivo do próximo ano. Isso inclui definição de saídas de atletas, renovações contratuais e possíveis contratações. O orçamento do departamento ainda depende de aprovação interna, mas a diretoria trabalha com a ideia de manter a folha salarial atual, ajustando pontualmente em posições consideradas carentes.
Enquanto isso, a oposição pretende usar o desgaste recente como argumento para tentar ampliar apoio no Conselho em 2026. A renúncia de Belmonte, interpretada como manobra política de Casares, deverá ser lembrada no debate sucessório, sobretudo caso os resultados em campo não apareçam.
Próximos passos
Os novos responsáveis pelo futebol voltarão a se reunir na terça-feira (2) para avaliar relatórios técnicos e médicos após a disputa da 35ª rodada do Brasileiro. Também está previsto um encontro com o elenco para alinhar a rotina até o recesso de fim de ano. A diretoria quer apresentar até a última semana de dezembro um plano de metas e investimentos para 2026.
Para os torcedores, o momento é de expectativa. A goleada para o Fluminense foi o estopim de uma crise que já fervilhava. Se a troca de comando será suficiente para recolocar o São Paulo em rota de conquistas dependerá dos próximos meses de trabalho e, principalmente, de resultados no gramado.
Com informações de Trivela