Um estudo nacional divulgado em 26 de novembro de 2025 revela que 27,8% dos adultos que buscaram cuidados ambulatoriais de saúde mental nos Estados Unidos entre 2021 e 2022 recorreram exclusivamente ao atendimento remoto. A análise, publicada no JAMA Psychiatry, utilizou dados representativos de todo o país para mapear quem prefere as consultas virtuais, quem opta pelo formato presencial e como fatores socioeconômicos influenciam essas escolhas.

Metodologia do levantamento

Os pesquisadores se debruçaram sobre a edição 2021-2022 da Medical Expenditure Panel Survey (MEPS), inquérito federal que acompanha gastos e utilização de serviços de saúde. Dentro de um universo de 4.720 adultos com 18 anos ou mais que declararam receber tratamento para questões psiquiátricas ou psicológicas, foram calculadas as proporções anuais de três modalidades de cuidado:

  • Somente telemental health (consultas virtuais): 27,8% (intervalo de confiança de 95%, 25,7%-29,8%).
  • Modelo híbrido (combinação de presencial e virtual): 21,5% (IC 95%, 19,8%-23,1%).
  • Somente presencial: 50,6% (IC 95%, 48,2%-53,1%).

Modelos estatísticos ajustados por idade, sexo e grau de sofrimento psicológico, aferido pela escala Kessler-6, permitiram comparar subgrupos demográficos, clínicos e geográficos. A partir daí, os autores identificaram padrões de utilização e potenciais barreiras ao acesso remoto.

Diferenças por idade, escolaridade e renda

Adultos de 18 a 44 anos foram os que mais adotaram o formato virtual: 31,7% (IC 95%, 29,0%-34,3%) realizaram todas as consultas à distância. Entre pessoas com diploma universitário, a taxa subiu para 34,5% (IC 95%, 31,5%-37,5%). Na análise por renda, 33,8% (IC 95%, 30,9%-36,7%) dos participantes em faixas salariais mais altas usaram exclusivamente o recurso on-line.

Também houve diferença conforme o tipo de cobertura: 30,8% (IC 95%, 28,5%-33,1%) dos beneficiários de seguros privados ficaram apenas no teleatendimento, porcentual superior ao observado entre pessoas com outros planos ou sem seguro. Em termos geográficos, residentes em áreas urbanas apresentaram 29,2% (IC 95%, 27,0%-31,3%) de uso exclusivo de consultas virtuais, contra percentuais menores em zonas rurais.

Tratamento e intensidade do sofrimento

O estudo também avaliou como o tipo de intervenção influencia a escolha do canal de cuidado. Pacientes que fazem psicoterapia sem medicação apareceram no topo da lista: 41,6% (IC 95%, 38,0%-45,2%) conduziram todas as sessões remotamente. Entre aqueles que combinam psicoterapia e fármacos, 25,9% (IC 95%, 23,2%-28,6%) permaneceram no modelo virtual.

Por outro lado, o teleatendimento foi menos frequente em tratamentos focados apenas em prescrição de medicamentos ou realizados por conselheiros (10,9%; IC 95%, 7,0%-14,7%) e assistentes sociais (8,4%; IC 95%, 4,1%-12,7%). Pacientes com sofrimento psicológico classificado como menor que moderado apresentaram 29,2% (IC 95%, 26,1%-32,3%) de consultas exclusivamente on-line.

Fatores socioeconômicos e desigualdade de acesso

Os autores, liderados por Michael Olfson, observam que a preferência das camadas de maior renda e escolaridade reflete não apenas familiaridade tecnológica, mas também recursos para escolher onde e como se tratar. Pessoas empregadas ou com horários flexíveis tendem a encontrar mais facilidade para se conectar de casa, do trabalho ou mesmo do carro, eliminando barreiras de transporte e tempo.

Em contrapartida, populações de renda mais baixa, residentes em áreas rurais ou sem seguro privado apareceram menos representadas entre os usuários exclusivos do serviço virtual. Segundo o estudo, a distribuição desigual sugere que questões financeiras e geográficas ainda limitam o acesso para parte da população, apesar da expansão rápida do modelo durante e após a pandemia de COVID-19.

Limitações citadas pelos pesquisadores

O artigo destaca alguns pontos que podem afetar a interpretação dos resultados:

  • Autodeclaração: todos os dados de utilização foram relatados pelos próprios participantes, o que pode resultar em subestimativa ou superestimativa do cuidado prestado.
  • Ausência de ajuste múltiplo: não foram aplicadas correções para múltiplas comparações estatísticas.
  • Amostras reduzidas: tamanhos pequenos em certos estratos exigiram a junção de categorias de teleatendimento.
  • Possível viés de não resposta: ainda que a pesquisa utilize ponderação, a recusa em participar pode distorcer a amostra.
  • Influência da pandemia: os anos analisados coincidem com fases de restrição sanitária, o que pode ter inflado o uso de consultas on-line.
  • Sem avaliação de efetividade: o questionário não permite medir desfechos clínicos ou comparar resultados entre modalidades.

Panorama e perspectivas

Apesar das limitações, o grupo de pesquisadores conclui que o atendimento virtual se consolidou como modalidade relevante e duradoura dentro do sistema norte-americano de saúde mental. A expectativa é que ele continue ocupando espaço significativo no futuro próximo, servindo como complemento ao atendimento presencial. O levantamento, no entanto, alerta para a necessidade de políticas que reduzam as barreiras enfrentadas por pacientes de menor renda, menor escolaridade, residentes em regiões remotas ou cobertos por seguros públicos.

Ao tornar possível o acompanhamento durante intervalos no trabalho, em casa ou em deslocamento, o modelo on-line agrega conveniência e elimina parte dos obstáculos logísticos típicos do tratamento presencial. Mesmo assim, muitos profissionais ressaltam que avaliações de crise, primeiros atendimentos ou quadros mais graves ainda exigem contato face a face, reforçando a ideia de coexistência entre os dois formatos.

Em síntese, o estudo mostra que um em cada quatro pacientes ambulatoriais já é atendido exclusivamente por meio virtual, predominando os perfis mais jovens, escolarizados, de maior renda, segurados por planos privados e residentes em cidades. Essas conclusões ajudam a mapear não só a popularização do teleatendimento, mas também os pontos onde a inclusão digital e o acesso equitativo ainda precisam avançar.

Com informações de AJMC

By bugou

"Com paixão por informar e compromisso com a verdade, o autor do 70 Notícias traz conteúdos atualizados e relevantes para manter você sempre bem informado. Curioso por natureza, busca sempre novas histórias e perspectivas, tornando cada postagem única e envolvente. A credibilidade e o respeito ao leitor são prioridade em cada linha escrita aqui."

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *