O Flamengo entrou para a história no sábado, 29 de novembro de 2025, ao derrotar o Palmeiras por 1 a 0 e erguer a CONMEBOL Libertadores pela quarta vez. O gol solitário de Danilo garantiu a conquista e expôs uma faceta que, até pouco tempo, não era apontada como prioridade no clube: a consistência defensiva. A nova postura da retaguarda rubro-negra, lapidada pelo técnico Filipe Luís, ganhou destaque justamente em meio à pressão permanente da torcida por um futebol ofensivo, marca registrada da equipe carioca.
DNA ofensivo preservado, mas defesa rouba a cena
O Rubro-Negro ostenta o melhor ataque do Brasileirão 2025, com 74 gols em 36 partidas, média próxima de dois tentos por jogo. O desempenho no campeonato nacional reforça o rótulo de equipe agressiva e criativa. Entretanto, na campanha continental que culminou no título, a solidez atrás da linha da bola foi determinante. Do início da fase de grupos até a final, o time sofreu apenas três gols — dois marcados pelo Central Córdoba e um pelo Estudiantes de La Plata. Nenhum adversário conseguiu furar a defesa nas fases semifinal e final.
A virada de chave passa diretamente pelas decisões do treinador. Filipe Luís, que assumiu o comando em 2024, estruturou a equipe a partir da dupla de zaga Léo Ortiz e Léo Pereira, consolidada como titular em jogos de maior exigência. Para 2025, o técnico ganhou um reforço de peso: Danilo, camisa 13, ex-lateral que se reinventou como zagueiro e foi escalado nos compromissos mais importantes da temporada.
Danilo: de coadjuvante a herói da final
Conhecido pela força ofensiva nos primeiros anos de carreira, Danilo respondeu à transição para a defesa com segurança e, sobretudo, gols decisivos. Contra o Chelsea, em amistoso de pré-temporada vencido por 3 a 1, o zagueiro já havia balançado a rede. Na decisão continental, foi novamente dele o cabeceio que superou a marcação palmeirense e definiu o placar.
Além da bola parada, Danilo mostrou leitura de jogo e poder de antecipação para cobrir as costas dos laterais, permitindo que a equipe mantivesse postura adiantada sem se expor. Quando Léo Ortiz precisou ser preservado, o novo titular manteve o padrão, fato que alimentou a confiança do elenco e da comissão técnica ao longo do torneio.
Rossi brilha nas horas mais tensas
Se a linha defensiva mostrou coesão, o goleiro Rossi foi responsável por intervenções decisivas. Nas oitavas de final, diante do Estudiantes, o argentino defendeu duas cobranças de pênalti e selou a classificação. O desempenho se repetiu contra o Racing nas quartas: com um jogador a menos, o Flamengo segurou o empate graças a defesas difíceis, sobretudo nos minutos finais, garantindo vaga na semifinal.
O camisa 1 terminou a Libertadores com o menor número de gols sofridos entre os goleiros que atuaram em oito ou mais confrontos, além de contabilizar seis partidas sem ser vazado.
Laterais completam parede rubro-negra
A engrenagem defensiva ganhou equilíbrio pelos lados do campo. À direita, Guillermo Varela fez sua melhor atuação pelo clube justamente na final, neutralizando investidas palmeirenses e apoiando o ataque com segurança. Na esquerda, Alex Sandro recuperou a sequência de jogos após temporadas marcadas por lesões. Seguro na marcação e contido no apoio, o experiente lateral agrada à comissão técnica da seleção brasileira e desponta como favorito à titularidade na Copa do Mundo de 2026, caso mantenha a forma.
Estatísticas que sustentam o título
Com apenas três gols sofridos em toda a caminhada, o Flamengo fechou a Libertadores 2025 com média de 0,23 gol contra por duelo. O índice contrasta com campanhas anteriores do próprio clube, que, apesar do estilo ofensivo, costumava ceder espaços no setor defensivo. Entre 2022 e 2024, por exemplo, a equipe sofreu média superior a um gol por partida em competições continentais.
Outro dado que sublinha a evolução é a quantidade de finalizações permitidas. O time de Filipe Luís concedeu 7,4 arremates rivais por jogo, dois a menos que a melhor marca rubro-negra nas três edições anteriores. Ao mesmo tempo, manteve a produção ofensiva elevada, finalizando 13,6 vezes por partida na Libertadores. Em outras palavras, atacou tanto quanto antes, mas se expôs menos.

Imagem: Internet
Planejamento que corrige antigo calcanhar de Aquiles
Desde o tricampeonato continental em 2022, dirigentes, comissão técnica e torcedores apontavam a falta de equilíbrio defensivo como obstáculo ao pleno aproveitamento do elenco. O setor foi reforçado de maneira pontual, sem abrir mão do estilo ofensivo. A chegada de Danilo e a consolidação de Rossi, somadas à confiança de Varela e à retomada física de Alex Sandro, fecharam a engrenagem.
Dentro de campo, o sistema de marcação adiantado prioriza a compressão de espaços no campo rival, mas a linha de zaga exibe sincronia para recuar rapidamente quando o adversário supera a primeira pressão. O posicionamento dos volantes, orientados a bloquear o passe entrelinhas, complementa o arranjo. A engrenagem reduziu a dependência de viradas no placar e permitiu que o Flamengo administrasse vantagens mínimas — como na decisão contra o Palmeiras — com maior tranquilidade.
A conquista e o futuro
O tetracampeonato continental — o primeiro da história de um clube sul-americano — dá nova dimensão ao trabalho de Filipe Luís. O ex-lateral, que levantou a taça como jogador em 2019, repete o feito agora na função de treinador. A façanha alimenta a expectativa de continuidade em 2026, ano em que o Flamengo disputará novamente a Libertadores e projetará a presença no Mundial de Clubes.
Internamente, a diretoria avalia poucas mudanças no elenco. A prioridade é manter a base titular, com a permanência de Rossi, Alex Sandro e Danilo como pontos-chave. Há ainda a perspectiva de aproveitar a janela de transferências para contratar um zagueiro jovem, pensando em reposição futura, mas a decisão depende de possíveis saídas. No momento, não há propostas oficiais por titulares.
No vestiário, a comemoração pelo gol de Danilo — eleito o melhor jogador da final — reverberou como símbolo de uma equipe que soube manter o tradicional futebol ofensivo, sem descuidar da tarefa de proteger a própria meta. Com a nova solidez defensiva, o Flamengo alcança o topo do continente pela quarta vez e encerra a temporada com um equilíbrio que faltou em ciclos anteriores.
O próximo compromisso oficial será contra o Fortaleza, pela penúltima rodada do Brasileirão, competição em que o clube ainda luta pelo título. Para Filipe Luís, a missão agora é evitar a acomodação e preservar a mesma disciplina defensiva que transformou o Flamengo em referência também do outro lado do campo.
Com informações de ESPN Brasil