A investigação sobre a morte de Benício Xavier, de seis anos, em Manaus, trouxe à tona uma questão crucial nos serviços de urgência: a administração intravenosa de adrenalina é segura em quais circunstâncias? O garoto recebeu o fármaco diretamente na veia para tratar um problema respiratório e não resistiu. A médica responsável pela prescrição e a técnica de enfermagem que aplicou a dose já prestaram depoimento à Polícia Civil e admitiram falha na escolha da via de aplicação, conforme documentos obtidos pelo G1.

O episódio acendeu o alerta entre profissionais de saúde e reforçou a necessidade de seguir rigidamente as recomendações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Ministério da Saúde. A adrenalina – nome farmacológico: epinefrina – é um agente vital em situações críticas, mas a forma, a dose e o contexto de uso determinam se ela salva ou coloca vidas em risco.

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Quando o medicamento deve ser aplicado

Segundo protocolos oficiais, a adrenalina é indicada para:

  • Parada cardiorrespiratória;
  • Reações alérgicas graves (anafilaxia);
  • Colapso circulatório associado a choque.

Nesses cenários, o objetivo é rápida reversão de broncoespasmo, restauração da força de contração do coração e melhora do fluxo sanguíneo. O efeito é quase imediato, atributo que justifica seu status de “droga salvadora” em emergências. Contudo, o mesmo poder de ação pode desencadear complicações severas se usado fora do padrão estabelecido.

Três vias, três perfis de risco

A bula registrada na Anvisa autoriza três rotas de administração: intramuscular, subcutânea e intravenosa.

  • Intramuscular (IM) – Preferida para anafilaxia. A absorção é relativamente rápida, mas menos abrupta, permitindo controle melhor da resposta cardiovascular.
  • Subcutânea – Alternativa quando a via IM não é possível. A liberação no organismo é ainda mais gradual.
  • Intravenosa (IV) – Indicada apenas em circunstâncias extremas, como parada cardíaca. Exige monitorização cardíaca contínua, presença de equipe treinada e bombas de infusão se necessário.

A escolha erroneamente feita no caso de Benício, de acordo com relatos dos pais, contrariou a conduta usual para quadros suspeitos de laringite ou tosse. Nessas situações, abordagens menos invasivas – nebulização com broncodilatadores ou medicação oral – são consideradas padrão.

Perigos de aplicação direta na corrente sanguínea

Quando a epinefrina é injetada na veia, sua concentração atinge o pico em segundos. Em adultos, isso já demanda cautela; em crianças, cuja massa corporal é menor e a sensibilidade cardiovascular é maior, o risco se multiplica. As complicações listadas em notas técnicas incluem:

  • Taquicardia extrema;
  • Arritmias potencialmente fatais;
  • Broncoespasmo paradoxal ou agravado;
  • Pico hipertensivo;
  • Palidez e sudorese súbita;
  • Colapso circulatório.

O Ministério da Saúde ressalta que variações mínimas na dose infantil podem produzir efeitos desproporcionais. Por essa razão, protocolos pediátricos recomendam seringas graduadas específicas, diluições adequadas e cálculo preciso baseado no peso.

Admissão de erro e responsabilidade profissional

De acordo com os depoimentos registrados, a médica reconheceu ter indicado a via inadequada. A técnica de enfermagem disse nunca ter aplicado adrenalina intravenosa em criança e que, ainda assim, executou a ordem. Ambas foram ouvidas e seguem respondendo em liberdade enquanto o inquérito tramita. A direção do hospital não divulgou nota oficial sobre mudanças internas após o incidente.

O que dizem as sociedades médicas

Orientações divulgadas pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e por guias de emergência defendem que a epinefrina permaneça disponível em qualquer pronto-atendimento, mas ressaltam:

  • Uso IV restrito a ressuscitação cardiorrespiratória ou choque refratário;
  • Treinamento obrigatório da equipe para reconhecer anafilaxia e diferenciar de crises respiratórias leves;
  • Monitorização de pressão arterial, frequência cardíaca e saturação sempre que houver administração do fármaco.

Os organismos também lembram que o hormônio é produzido naturalmente pelas glândulas suprarrenais em situações de medo ou estresse, o que explica a elevação natural dos batimentos cardíacos. Quando injetado, porém, o efeito é exponencial.

Dose pediátrica exige cálculo milimétrico

A bula recomenda 0,01 mg/kg por via IM em casos de alergia grave, sem ultrapassar 0,3 mg em crianças. Para a rota IV, as quantidades são ainda menores e dependem de diluição em solução fisiológica. Qualquer desvio pode resultar em sobrecarga cardíaca imediata. Por isso, diretrizes orientam que unidades de emergência mantenham seringas previamente rotuladas e estabeleçam “checagem dupla” antes da aplicação.

Impacto nas políticas de segurança hospitalar

A morte de Benício já motiva discussões em conselhos regionais de medicina e enfermagem sobre reforço de treinamento e revisão de protocolos. Especialistas defendem a implementação de check-lists obrigatórios e simulações regulares para reduzir falhas humanas. Eles também pedem que prontuários eletrônicos incluam alertas automáticos quando o profissional selecionar a via IV para epinefrina em pacientes pediátricos.

Cuidados para pais e cuidadores

Embora a maioria dos atendimentos infantis com tosse, laringite ou bronquiolite não envolva adrenalina, é direito dos responsáveis perguntar sobre o medicamento e a via de aplicação. Caso o médico indique epinefrina, a recomendação é solicitar esclarecimentos sobre a justificativa clínica, a dose calculada e os sinais que serão monitorados durante e após a administração.

Importância da notificação de eventos adversos

A Anvisa mantém um sistema de farmacovigilância que permite a profissionais de saúde registrar reações graves ou óbitos associados a medicamentos. Esses dados subsidiam revisões de bula e campanhas educativas. Autoridades enfatizam que notificar não é punir, e sim prevenir novos casos.

Hormônio natural e fármaco essencial

A adrenalina ganhou fama no imaginário popular por estar associada a esportes radicais e emoções fortes. No corpo, ela é liberada para ampliar a capacidade de reação diante de ameaças, aumentando fluxo sanguíneo para músculos e melhorando a ventilação pulmonar. Na medicina, o composto sintético replica essa ação em situações nas quais segundos fazem diferença. Utilizada corretamente, salva vidas; empregada de forma inadequada, sobretudo na veia, pode ser letal.

O caso de Manaus serve de alerta para equipes de saúde revisarem rotinas e para gestores investirem em treinamento contínuo. Evitar novas tragédias passa, sobretudo, pela adesão rigorosa a protocolos científicamente validados.

Com informações de Olhar Digital

By bugou

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