Toledo (Espanha) – Um aposentado de 82 anos vem desafiando o entendimento científico sobre envelhecimento: exames indicam que o organismo de Juan López González funciona como o de alguém na casa dos 20. A conclusão, divulgada por pesquisadores da Universidade de Castela-La Mancha, nasceu de três anos de testes em laboratório e acompanha uma trajetória esportiva iniciada tarde – ele calçou tênis para correr pela primeira vez aos 66.
Início tardio na corrida
López decidiu correr depois de cumprir uma promessa de peregrinar pelo Caminho de Santiago. A caminhada de 800 km, realizada logo após a aposentadoria, consumia tantas horas por dia que uma de suas filhas, alpinista, sugeriu: “Papai, comece a trotar; andando, você passa muito tempo fora de casa”. O conselho marcou o ponto de virada. Nos primeiros minutos de trote, ele ficava sem fôlego, mas insistiu. “Fui avançando pouco a pouco”, relembra.
Aos 70 anos, já federado, passou a competir em provas de fundo e ultradistância. De lá para cá, estabeleceu marcas nacionais e mundiais nos 2 000 m, 3 000 m, 10 000 m, maratona, 50 km e 100 km em faixas etárias acima de 70 e acima de 80. Em 2025, cravou 4h47min39s nos 50 km para maiores de 80, superando em 49 min o recorde anterior do norte-americano Don Winkley (5h36min39s). O ritmo médio – 5min44s por quilômetro – surpreendeu até atletas mais jovens.
Rotina dividida entre cuidados domésticos e treino
Apesar dos títulos, López não leva vida de atleta profissional. Morador de Toledo, ele dedica as manhãs aos afazeres de casa e ao cuidado da esposa, Mari, que enfrenta problemas de saúde. Depois do almoço, quando a deixa acomodada no sofá, vai às ruas ou trilhas. Treina seis vezes por semana, entre duas e duas horas e meia por sessão, faça frio ou calor. Aos domingos, corre em grupo, em ritmo de conversa, cobrindo distâncias mais longas.
“Não gosto da palavra ‘velho’, porque velho é algo que já não serve. Sinto que ainda posso muito”, afirma. A manutenção da força ajuda até nos cuidados com a companheira. “Se ela precisar de ajuda para se levantar, eu consigo erguê-la sem dificuldade graças ao esporte.”
Da oficina aos laboratórios
Antes de virar corredor, López passou meio século cercado por motores. Começou como aprendiz de mecânico aos 11 anos, abriu sua própria oficina e chegou a construir um carro de competição – um Seat 600 com motor central V6 de 2 700 cm³ – para disputar provas regionais de autocross. Essa atividade física constante, segundo o médico esportivo Julián Alcázar, contribuiu para preservar massa muscular e sistemas cardiovasculares.
“Se tivesse passado a vida sentado num escritório, provavelmente não chegaria a estes resultados”, avalia Alcázar, que lidera a equipe da Universidade de Castela-La Mancha responsável pelo acompanhamento científico do atleta.
Músculos com performance de adulto jovem
Os pesquisadores realizaram exames de consumo máximo de oxigênio, composição corporal, força e gasto energético em repouso. A taxa metabólica basal – quantidade de calorias que o corpo queima parado – equivale à de um adulto no início da vida profissional. “Os músculos de Juan são extremamente eficientes na captação e uso de oxigênio, fator decisivo para provas longas, porque poupam glicogênio e utilizam gordura como combustível”, explica Alcázar.
Genética favorável, ausência de doenças congênitas e histórico sem grandes acidentes ajudam, mas não contam toda a história. “O grande diferencial é a regularidade. O melhor programa de treinamento é inútil se não for seguido todos os dias”, reforça o médico.
Treinar para viver, não só para competir
Com a saúde da esposa exigindo mais atenção, López reduziu o número de provas, mas não pensa em pendurar os tênis. Ele próprio aconselha prudência a quem busca inspiração em seus resultados: “Atividade física é ótima na nossa idade, mas, se o foco for apenas o cronômetro, perde-se a essência. O importante é manter o exercício como parte da vida”.

Imagem: Internet
Para enfrentar percursos de 50 km ou 100 km, recorre a um método simples de motivação mental. Divide a distância em 11 partes, cada uma dedicada a um integrante da família: esposa, filhas, netos e um bisneto. “Manter a cabeça ocupada em algo que não seja o esforço ajuda a avançar”, diz.
Impacto científico
O encontro entre atleta e universidade ocorreu por acaso: um integrante do grupo de pesquisa viu López treinando nas ruas de Toledo e o convidou para exames. Desde então, ele visita o laboratório regularmente. Os dados coletados servem para entender como treinamento de resistência influencia envelhecimento, capacidades funcionais e prevenção de doenças.
“Monitorar alguém com mais de 80 anos e desempenho desse nível é raridade. Ele oferece um modelo para estudar o que ainda é possível alcançar na velhice”, comenta Alcázar. Os resultados serão publicados em artigos focados em fisiologia do exercício e saúde pública.
“Sair do sofá é o primeiro passo”
López rejeita a ideia de que idades avançadas impõem limites intransponíveis. “Muitos conhecidos dizem: ‘Não faço mais isso porque não tenho idade’. Mas, se ficarem sentados, nunca descobrirão de que são capazes”, argumenta. O espanhol de 1,60 m e pouco mais de 50 kg mantém-se como exemplo vivo de que movimento constante, alimentação balanceada e descanso adequado podem adiar o relógio biológico.
Enquanto isso, ele segue sua rotina: cafeteira ligada ao amanhecer, compras feitas a pé pelo bairro, treino vespertino e, à noite, companhia permanente a Mari. Perguntado sobre planos futuros, responde sem hesitar: “Continuar correndo. Competir menos, talvez, mas treinar sempre. Parar não está nos meus planos”.
Na pista ou no laboratório, a trajetória de Juan López reforça a percepção de pesquisadores de que aspectos comportamentais, mais do que a data no documento de identidade, definem a vitalidade na terceira idade.
Com informações de BBC News Brasil
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