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Bloqueio iraniano Estreito de Ormuz controle petróleo mundial SEO AdSense

Porto Alegre – 27 mar. 2026. Até 28 de fevereiro, o Irã respondia por cerca de 4% da oferta global de petróleo, produzindo diariamente 4,5 milhões de barris de cru e condensados. Desde então, porém, a República Islâmica passou a influenciar 20% do mercado mundial ao limitar a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, corredor marítimo de 150 a 170 quilômetros que liga o Golfo Pérsico ao de Omã.

Fechamento parcial impõe nova realidade ao tráfego marítimo

Localizado entre a margem norte iraniana e o sultanato de Omã ao sul, o Estreito de Ormuz é rota de escoamento de aproximadamente um quinto do petróleo consumido no planeta. Pela primeira vez, Teerã colocou em prática a ameaça de restringir o tráfego, medida declarada “exclusiva para nações hostis”, como Estados Unidos, Israel e seus aliados. Desde o início da guerra, apenas algumas dezenas de petroleiros receberam autorização para cruzar a área — volume habitualmente registrado em um único dia de tempos de paz.

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A simples possibilidade de colocação de minas, ataques por mísseis antinavio ou investidas de drones tem bastado para desencorajar armadores e seguradoras a operar na região. Fertilizantes, polímeros e outros derivados de hidrocarbonetos que normalmente seguem no mesmo fluxo comercial também enfrentam gargalos logísticos.

A estratégia assimétrica de Teerã

Especialistas classificam a medida como um clássico exemplo de guerra assimétrica. “Por ser uma potência média, o Irã não tem condições de enfrentar os Estados Unidos em pé de igualdade e, portanto, investiu em instrumentos que aumentam o custo do conflito para adversários mais fortes”, resume Eduardo Svartman, professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa.

Entre esses instrumentos, destaca-se o apoio a grupos irregulares como Hezbollah, no Líbano, e houthis, no Iêmen. No atual confronto, a tática dominante é dificultar ou bloquear a passagem por Ormuz, fazendo da logística global um ponto de pressão política e econômica.

Características que facilitam o bloqueio

Com profundidade máxima de cerca de 100 metros e canais de navegação de apenas 3 quilômetros em cada direção, o Estreito de Ormuz pode ser fechado mesmo por meios de baixa complexidade. “Drones municiados com explosivos seriam suficientes para impedir o trânsito, sem necessidade de grandes frotas ou operações navais convencionais”, observa Svartman.

Reportagem da revista britânica The Economist, datada de 28 de março, estampou na capa um mapa-múndi amassado em forma de funil segurado por uma mão com anel que exibe a bandeira iraniana, sob o título “Vantagem para o Irã”, refletindo a percepção de que Teerã detém agora uma alavanca estratégica de alcance global.

Erros de cálculo em Washington

Para Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, a adoção do instrumento assimétrico por Teerã era previsível após os bombardeios norte-americanos e israelenses. “Cada país utiliza os recursos de que dispõe. O Irã estava preparado para impor perdas maiores do que os Estados Unidos imaginavam”, afirma.

Cortinhas avalia que a resposta iraniana tornou visíveis deficiências no processo decisório em Washington. O presidente Donald Trump, destaca o pesquisador, escolheu colaboradores mais por afinidade ideológica do que por experiência estratégica, caso do secretário de Defesa, Pete Hegseth. “O resultado é um ambiente de decisões caóticas”, diz. O professor também aponta falha de inteligência ao subestimar a capacidade iraniana de defesa.

Planos engavetados no Pentágono

Svartman lembra que o Departamento de Defesa dos EUA mantém estudos sobre o Estreito de Ormuz desde a Revolução Islâmica de 1979. “Existe, sem dúvida, uma sala repleta de planos para lidar com o bloqueio”, comenta. O problema, segundo ele, está na transposição do planejamento técnico para a esfera política. “Enquanto o poder aéreo tem relevância, ele não é onipotente. A derrubada do regime iraniano por ataques do alto não se concretizou, e o tempo atua contra Washington.”

O especialista menciona ainda a possibilidade de o governo norte-americano ter confiado na avaliação israelense de que a eliminação da cúpula do regime levaria a uma revolução interna — cenário que, até o momento, não ocorreu.

Bloqueio iraniano no Estreito de Ormuz amplia controle de Teerã sobre um quinto do petróleo mundial - Imagem do artigo original
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Imagem: Internet

Ambiguidade e narrativas internacionais

Maria Eduarda Dourado, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba, ressalta que a guerra assimétrica oferece ao Irã um grau de ambiguidade útil: “Torna mais difícil caracterizar formalmente as ações de Teerã como atos de guerra perante a comunidade internacional”. Segundo ela, a resposta eficaz a ameaças assimétricas exige abandonar a lógica convencional de “vitória militar” e adotar um enfoque de resiliência e dissuasão multidimensional. “O objetivo é tornar o ataque inimigo politicamente custoso ou inútil”, explica.

Para Dourado, a permanência de forças da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na área poderia transformar o impasse entre Estados Unidos e Irã em uma questão de segurança coletiva, ampliando o debate diplomático.

Desafios climáticos a possíveis operações terrestres

O ex-embaixador brasileiro no Irã, Sérgio Tutikian, recorda que Teerã ameaça fechar Ormuz desde a guerra contra o Iraque, travada entre 1980 e 1988. Ele alerta que uma eventual campanha terrestre dos EUA no Golfo, se avançar até junho, enfrentará temperaturas próximas de 50 °C e umidade relativa do ar de 100%. “A própria água do Golfo Pérsico é quente”, comenta.

O diplomata, que serviu também no Iraque e no Kuwait, cita a ilha iraniana de Kharg, centro de distribuição petrolífera considerado possível alvo de invasão. “Nos anos 1970, quando visitei a ilha pela primeira vez, Kharg era basicamente um ponto turístico”, recorda.

Impacto imediato no mercado energético

Mesmo sem ação militar de grande escala, o bloqueio parcial já provocou elevação dos prêmios de seguro marítimo e instabilidade nos preços internacionais do barril. Analistas do setor estimam que o fluxo normal só será restabelecido após garantias concretas de segurança, seja por meio de negociações diplomáticas, seja por escoltas navais de grande porte — alternativas que, até o momento, não se materializaram.

Enquanto isso, países consumidores buscam fontes alternativas de suprimento. A Arábia Saudita sinalizou a ampliação da produção em instalações não dependentes de Ormuz, mas especialistas lembram que oleodutos internos e rotas terrestres têm capacidade limitada para compensar o volume retido no Golfo Pérsico.

Cenário segue indefinido

Com a temporada de verão no horizonte e a diplomacia internacional em marcha lenta, o impasse no Estreito de Ormuz permanece sem solução clara. A capacidade de Teerã de manter o bloqueio por meio de ameaças de baixo custo logístico, aliada à dependência global do petróleo que passa pelo corredor, sustenta a vantagem estratégica alcançada pelo Irã desde o fim de fevereiro.

Autoridades norte-americanas evitam detalhar os próximos passos, enquanto navios de bandeiras consideradas “neutras” negociam passagens caso a caso, reforçando a percepção de que, por ora, o relógio trabalha a favor de Teerã.

Com informações de BBC News Brasil

By bugou

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