São Paulo – Desde 2 de março de 2026, quando Teerã anunciou a restrição de acesso ao Estreito de Ormuz após os primeiros bombardeios de Israel e dos Estados Unidos, o corredor marítimo que concentra 20% do petróleo consumido no planeta opera muito abaixo da capacidade e mantém os preços internacionais em alta. Mesmo com poderio militar considerável, Washington ainda não conseguiu garantir a navegação segura na rota, dominada historicamente pelo Irã.
Queda drástica no tráfego
Antes do conflito, cerca de 130 navios percorriam diariamente o estreito que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Agora, segundo dados compilados pela BBC Verify, apenas cinco ou seis embarcações fazem a travessia a cada dia, redução próxima de 95%. De 28 de fevereiro até o momento, menos de 100 navios completaram o percurso. A diminuição reflete tanto o temor de ataques quanto o aumento expressivo dos prêmios de seguro marítimo, uma vez que até armamentos de baixo custo podem causar grandes danos a petroleiros avaliados em centenas de milhões de dólares.
Impacto imediato nos preços de energia
O aperto no fluxo elevou o custo do barril em mais de 40% desde o início das hostilidades. Como pelo estreito passam também volumes significativos de gás natural liquefeito e fertilizantes, cadeias industriais, de transporte e de agricultura em todos os continentes já registram pressão de custos. De acordo com Dmitry Zhdannikov, editor de energia e commodities da Reuters, o mundo chegou a ficar quatro dias consecutivos sem receber qualquer remessa de petróleo proveniente da região.
Importância estratégica secular
A faixa de mar que separa o Irã da Península Arábica mantém valor estratégico há quase dois mil anos. No século 2, já funcionava como entreposto do Império Persa. No século 16, os portugueses ergueram uma fortaleza na área e cobravam tributos de navios em rota entre a Ásia e a Europa. Dominado atualmente por forças iranianas, o estreito continua a influenciar fluxos globais de energia: aproximadamente 90% do petróleo que passa por ali segue para Ásia, sendo a China destinatária de 38% do total, seguida por Índia, Coreia do Sul e Japão.
Geografia favorece defesa iraniana
Na parte mais estreita, Ormuz tem cerca de 33 quilômetros de largura. Entretanto, o tráfego se concentra em duas pistas estreitas – uma de entrada e outra de saída – separadas por uma zona de segurança. Esses corredores oferecem poucos quilômetros de manobra a navios comerciais, que são lentos, previsíveis e carecem de sistemas de autodefesa. Na prática, a faixa marítima funciona como um funil cujas bordas montanhosas proporcionam pontos elevados de ataque para artilharia costeira iraniana, reduzindo o tempo de reação das embarcações que entram ou saem do Golfo.
Capacidade de negação, não de bloqueio total
Especialistas citados pela BBC apontam que Teerã não precisa fechar completamente o estreito para atingir seus objetivos. Basta criar incerteza suficiente para afastar armadores. O Irã dispõe de baterias de mísseis antinavio, uma força aérea capaz de atingir alvos no mar, drones, minas navais e a tática de “enxame” com pequenas embarcações rápidas, capazes de sobrecarregar sistemas de defesa dos comboios ocidentais. Desde o fim de fevereiro, foram relatados mais de 20 incidentes, entre disparos de mísseis e investidas de barcos menores, contra navios que tentaram atravessar a área.
Dificuldade para operações multilayer
Cobrir todas as ameaças exigiria patrulhas aéreas, varredura de minas, escoltas navais e inteligência contínuas, sem escalar o conflito. Navios caça-minas, por exemplo, conseguem detectar explosivos subaquáticos, mas permanecem vulneráveis a mísseis ou drones de ataque. A combinação de perigos móveis, baratos e difíceis de localizar torna a operação complexa e custosa, segundo Kevin Rowlands, ex-capitão da Marinha Real britânica e editor do RUSI Journal.
Cautela das companhias e das seguradoras
A insegurança jurídica e física levou diversas empresas a desviar rotas ou suspender viagens. Há relatos de embarcações que percorrem trechos mais próximos da costa iraniana, possivelmente após negociação direta com autoridades locais. Outros navios desligam sistemas de rastreamento para reduzir a exposição, ainda que isso não impeça ataques. “Os armadores dizem: não colocarei meus navios de volta a Ormuz sem algum tipo de acordo entre Estados Unidos, Israel e Irã”, resumiu Zhdannikov.

Imagem: Internet
Pressão política e nenhuma solução à vista
Para reabrir a rota, a Casa Branca tem pressionado aliados europeus a aderir a uma força-tarefa que garanta a navegação. O presidente Donald Trump chegou a dar ultimato: caso não houvesse liberação de tráfego em 48 horas, instalações de energia iranianas seriam alvos de bombardeio. Dias depois, o mandatário mencionou “negociações produtivas”, mas Teerã negou qualquer diálogo. Em nota, autoridades iranianas declararam que apenas navios “não hostis” podem entrar na área, desde que solicitem permissão formal.
Nenhum indicativo de recuo
Com o cenário descrito como “fluido” pela Casa Branca, não há confirmação de conversas diretas para um cessar-fogo ou para um corredor humanitário que inclua a totalidade das embarcações comerciais. Enquanto os riscos permanecerem elevados, seguradoras devem manter preços em patamar recorde e parte significativa da frota mundial continuará evitando o estreito.
Especialistas alertam que a persistência da instabilidade pode desencadear efeitos em cadeia: encarecimento de combustíveis, pressão sobre a inflação global e impactos nas contas externas de países dependentes de importação de energia. Fertilizantes que usam rota semelhante também podem ficar mais caros, afetando safras em mercados como o brasileiro.
Embora o Estreito de Ormuz permaneça oficialmente aberto, a combinação de geografia restrita, arsenal diversificado do Irã e apreensão de armadores demonstra que, na prática, controlar totalmente a passagem exige mais do que poder militar bruto. Por ora, os Estados Unidos enfrentam o limite físico e político de dominar um funil marítimo em que ameaças de baixo custo conseguem paralisar bilhões de dólares em comércio global.
Com informações de BBC News Brasil
Tags: Estreito de Ormuz, Irã, Estados Unidos, petróleo, Donald Trump, preço do petróleo, Oriente Médio, segurança marítima

