O Liverpool atravessa, em pleno mês de novembro, o momento mais turbulento desde a chegada de Arne Slot à Inglaterra. Na quarta-feira, 26, o time foi dominado pelo PSV dentro de Anfield e saiu de campo derrotado por 4 a 1, aumentando para três a série de reveses consecutivos na temporada 2025/26. O resultado deixou o técnico holandês exposto a uma pressão inédita, premiando uma sequência que já acumula dez gols sofridos e apenas um marcado nos últimos três compromissos – cenário bem diferente do título inglês conquistado pelo próprio Slot no campeonato anterior.
“Futebol simples” prometido, desempenho complexo entregue
Antes de a bola rolar contra o clube de Eindhoven, Slot garantiu ter a “receita” para recolocar os Reds nos trilhos. Inspirado pelos ensinamentos de Johan Cruyff, o treinador afirmou que bastaria retomar um “futebol simples” para afastar a má fase vivida após as derrotas por 3 a 0 contra Manchester City e Nottingham Forest. Na prática, porém, o discurso não se materializou. O PSV explorou as fragilidades defensivas do Liverpool, abriu o placar ainda no primeiro tempo em lance que expôs a falha de Virgil van Dijk e consolidou a vitória na etapa final, empurrando a equipe de Merseyside para a nona derrota em 20 partidas oficiais em 2025/26.
O contraste é flagrante em comparação ao biênio 2015-2024 comandado por Jürgen Klopp, quando a intensidade era marca registrada no norte da Inglaterra. Enquanto o time de Klopp se notabilizou pela pressão alta e pela coesão tática, a versão atual tem se mostrado vulnerável na recomposição e pouco criativa na frente. A constatação levou o jornal britânico The Guardian a classificar o elenco como “um Frankenstein” montado às pressas após sucessivas mudanças no plantel.
Saídas de peso e investimento recorde
A derrocada coletiva não pode ser dissociada do mercado de transferências recente. Nas últimas janelas, o Liverpool perdeu pilares de diferentes setores: Luis Díaz acertou com o Bayern de Munique, Trent Alexander-Arnold foi contratado pelo Real Madrid, Darwin Núñez seguiu para o Al-Hilal e o zagueiro Jarell Quansah rumou ao Bayer Leverkusen. Para suprir lacunas tão significativas, o clube desembolsou mais de 480 milhões de euros — cerca de R$ 2,9 bilhões na cotação atual — em reforços, mas ainda não colheu os frutos esperados.
Alexander Isak e Hugo Ekitiké chegaram para dividir a função que era de Núñez no comando do ataque. Florian Wirtz foi contratado para herdar o espaço deixado por Díaz nas pontas, enquanto Jeremie Frimpong e Milos Kerkez complementaram a reformulação nas laterais. Mesmo com o investimento robusto, o conjunto não encaixou: Isak alterna aparições apagadas, Ekitiké ainda busca ritmo, Wirtz convive com oscilações, e os novos defensores não estabilizaram um setor que já sofreu 29 gols nos principais torneios.
Van Dijk e Salah em xeque
A crise coletiva respingou em símbolos do clube. Van Dijk, outrora referência defensiva, falhou no lance que abriu caminho para a goleada do PSV, reforçando questionamentos sobre uma possível queda física do capitão de 34 anos. No ataque, Mohamed Salah também passou a ser foco de críticas da imprensa inglesa: em 14 aparições combinando Premier League e Champions League, o egípcio soma apenas quatro gols e cinco assistências, números distantes da temporada passada, quando figurou entre os melhores jogadores do planeta.
Salah, aos 33 anos, enfrenta discussões sobre desgaste físico após sucessivas temporadas exigentes, enquanto a falta de sincronia ofensiva dificulta suas ações em velocidade. Fontes internas do clube admitem que o rendimento aquém de referências como Salah e Van Dijk contribui para a percepção de que o vestiário perdeu a confiança no plano de jogo proposto por Slot.
Pressão e risco de demissão
Aos 47 anos, Arne Slot reconhece publicamente a possibilidade de demissão caso a espiral negativa não seja interrompida. “Não importa se é justo ou não; entendo que é normal”, declarou, na entrevista coletiva pós-jogo, ao comentar as especulações cada vez mais frequentes sobre seu futuro. “Se qualquer treinador do mundo perder a quantidade de jogos que perdemos, é natural que as pessoas falem.”
Apesar do discurso sóbrio, a diretoria já monitora o cenário de perto. O Liverpool ocupa apenas a 12ª posição no Campeonato Inglês, com seis vitórias e seis derrotas após 14 rodadas. Se não vencer o West Ham no domingo, 30, no Estádio de Londres, o técnico holandês verá o número de reveses superar o de triunfos pela primeira vez desde que assumiu o cargo em 2024.
Do auge ao abismo em 12 meses
A rapidez com que o cenário mudou impressiona torcedores e analistas. Em maio, Slot comemorava a conquista da Premier League no seu primeiro ano à frente dos Reds, herdando um conjunto competitivo de Klopp e potencializando características de jogo vertical. A transição de temporada, contudo, foi marcada por saídas estratégicas, tentativas de reposição imediata e uma pré-temporada na qual 14 atletas se alternaram entre seleções nacionais e compromissos de marketing.
Imagem: Imago
Sem tempo para treinar e com o calendário apertado, o treinador tentou diferentes esquemas: 4-3-3, 4-2-3-1 e até 3-4-3. Nenhum rendeu consistência. O meio-campo, antes motor da pressão alta, agora perde segundas bolas com facilidade; o ataque, dependente das diagonais de Salah, carece de variação; e a defesa sofre para proteger Van Dijk em transições rápidas. O resultado é um time que passou de favorito ao bicampeonato nacional a candidato a ficar fora das competições europeias.
Guardian: “um Frankenstein em Anfield”
O adjetivo “Frankenstein” usado pelo The Guardian sintetiza a percepção de que o Liverpool se tornou um mosaico de peças desconectadas. A expressão remete à obra de Mary Shelley, na qual um monstro é criado a partir de partes díspares de vários corpos. Na metáfora futebolística, as saídas de líderes naturais somadas às contratações emergenciais ensejaram um elenco cujos perfis não se complementam. O jornal questiona se Slot terá capacidade — e tempo — para “reviver esse monstro”.
Partida decisiva contra o West Ham
Antes de qualquer julgamento definitivo, o treinador terá pela frente uma derradeira oportunidade de alívio imediato. O encontro com o West Ham é encarado internamente como “jogo de seis pontos”, não apenas pela posição intermediária na tabela, mas pelo impacto moral que um triunfo – ou um novo revés – poderá provocar.
Um resultado positivo daria fôlego antes de mais uma rodada da Champions League, na qual o Liverpool ainda busca vaga no mata-mata. Por outro lado, um tropeço pode acelerar um eventual processo de substituição no comando técnico, já ventilado por parte da torcida e comentado em bastidores midiáticos.
Próximos passos
Enquanto isso, a direção monitora o mercado e reforça o discurso de “confiança total” no trabalho do treinador, mas sem garantia de prazo. Entre os torcedores, cresce o sentimento de saudade da era Klopp, quando o clube combinava identidade tática forte a resultados expressivos. Para Arne Slot, o desafio será provar que a temporada passada não foi um ponto fora da curva e que o projeto ainda merece continuidade.
Seja qual for o desfecho, a goleada do PSV escancarou a urgência de respostas rápidas. Até o momento, a “receita Cruyff” prometida ficou restrita às entrevistas. Dentro de campo, o Liverpool segue buscando as peças — e o encaixe — que devolvam ao time o poder de intimidação perdido nos últimos meses.
Com informações de Trivela