O custo para passar a noite em um hotel ou pousada na região metropolitana de Belém explodiu em novembro. Segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), divulgado nesta quarta-feira (26) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as diárias de hospedagem ficaram 155,24% mais caras em relação a outubro, o maior avanço entre todos os itens pesquisados pelo órgão estatístico no período.
Eventos internacionais pressionam preços
O salto coincide com a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), encerrada no último sábado (22) após 13 dias de negociações reunindo representantes de quase 200 países. Além da COP30, Belém sediou, nos dias 6 e 7 de novembro, a Cúpula do Clima, encontro que recebeu chefes de Estado e de governo logo no início do mês. O movimento atípico de autoridades, delegações, jornalistas e participantes fez a demanda por quartos disparar na capital paraense, pressionando os valores praticados pelo setor hoteleiro.
Não foi apenas em terra que os custos subiram. As passagens aéreas com destino à cidade registraram incremento de 25,32% na comparação com outubro, reforçando o impacto da movimentação extraordinária provocada pelos dois eventos internacionais.
Belém lidera a inflação regional
Com a disparada de hospedagem e tíquetes de avião, a prévia da inflação de Belém alcançou 0,67% em novembro, o índice mais elevado entre as 11 áreas de abrangência do IPCA-15. O resultado superou em mais de três vezes a média nacional, que ficou em 0,20% para o período. Nenhuma outra região metropolitana investigada pelo IBGE apresentou variação semelhante.
Em 12 meses, a diferença é ainda mais expressiva. O custo de hospedagem na Grande Belém avançou 204,63%, ritmo 16 vezes superior à média de 12,71% observada no país. Para efeito de comparação, a maior cidade brasileira, São Paulo, registrou alta de 4,48% no mês e 10,86% no acumulado de um ano, evidenciando o caráter excepcional do movimento identificado no Pará.
Peso da capital paraense no IPCA
Embora a escalada dos preços tenha sido acentuada, o impacto de Belém na inflação nacional é limitado pelo peso que a região ocupa na cesta do IPCA: 4,46%. São Paulo, com participação de 33,45%, comporta o maior peso entre as áreas pesquisadas. Por isso, caso a explosão nos preços de hospedagem ocorresse na capital paulista, o reflexo sobre a taxa do país seria significativamente maior.
O professor de economia e finanças Gilberto Braga, do Ibmec-RJ, lembra que os efeitos de uma conferência de grande porte ultrapassam as fronteiras da cidade-sede. “Mesmo quem não viajou para Belém acaba sentindo impacto nas passagens aéreas, porque muitas rotas dependem de conexões em aeroportos que funcionam como hub”, explicou. “Dessa forma, a COP30 eleva a inflação medida pelo IPCA-15, ainda que parte dessa pressão seja indireta”, completou.
Janela de coleta do IBGE
A pesquisa de preços que alimenta o IPCA-15 foi realizada de 14 de outubro a 13 de novembro. Portanto, o levantamento captou somente uma parte dos dias da COP30, iniciada em 10 de novembro. Os valores coletados refletem, principalmente, a fase inicial do evento e o período de preparação, quando a procura por hospedagem já estava elevada.
O IPCA cheio de novembro, cuja coleta abrange todo o mês, incluirá a totalidade dos 13 dias de conferência, bem como possíveis ajustes nos preços após o término das negociações climáticas. O resultado oficial será divulgado em 10 de dezembro e mostrará de maneira mais completa o efeito da COP30 sobre a inflação geral.
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Diferentes velocidades entre as capitais
A variação abrupta em Belém contrasta com o comportamento verificado em outras regiões. Em São Paulo, por exemplo, as diárias de hotéis subiram 4,48% em novembro, ritmo considerado moderado diante do patamar nacional e da procura constante que a metrópole registra por turismo de negócios. No recorte anual, a inflação na hospedagem paulista (10,86%) também ficou aquém da média geral de 12,71% para o Brasil.
Nesse contexto, o resultado de Belém se destaca como um fenômeno sazonal ligado a eventos de grande magnitude, diferentemente de capitais cuja dinâmica de turismo corporativo ou lazer é mais distribuída ao longo do ano.
A influência da malha aérea
Além do impacto local, a alta de 25,32% nas passagens aéreas reflete o encarecimento de rotas que convergem para a capital paraense. A necessidade de deslocamento de delegações estrangeiras e nacionais gerou maior ocupação de voos, restringiu disponibilidade de assentos e motivou empresas aéreas a reajustar tarifas. Segundo especialistas, o efeito se espalha porque companhias costumam realocar aeronaves dentro da própria malha, provocando aumento de preços em conexões intermediárias.
Esse movimento reforça a tese de que grandes conferências têm potencial de pressionar a inflação não apenas no segmento hoteleiro, mas também no transporte aéreo, gerando efeitos secundários em outras localidades que operam como pontos de conexão.
Impactos futuros serão monitorados
Com o calendário de divulgação já definido, o IBGE acompanhará os desdobramentos da COP30 sobre os índices de dezembro e dos meses seguintes. Caso a demanda por hospedagem e voos volte a níveis habituais após o encerramento do evento, espera-se uma normalização dos preços. Por outro lado, se a cidade mantiver fluxo turístico superior ao padrão histórico, parte da alta pode se consolidar ao longo de 2026, repercutindo nas estatísticas inflacionárias.
No momento, a robusta variação registrada em novembro reforça o caráter extraordinário da COP30 e da Cúpula do Clima na formação de preços em Belém. Esses dados ajudam a contextualizar a importância econômica de eventos internacionais e servem de referência para planejamentos futuros, tanto do setor público quanto da iniciativa privada.
Com informações de Agência Brasil